Seu Trabalho

Minha ostentação é ser feliz no trabalho. Será?

O que é mais importante: ganhar likes ou disseminar informação de qualidade, de maneira responsável? Fabiane Pereira reflete sobre os limites do ego, a relação com as redes e o impacto social do seu trabalho

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Quem lê esse título pode achar que vem aí mais um texto de autoajuda desses que inundam nossa timeline. Talvez até seja, mas juro que é sem intenção. Tirei esse título de uma entrevista dada pela influenciadora Camila Coutinho à revista Glamour. Confesso que não li a entrevista, mas parei nesse post assim que o vi no perfil da idealizadora do ótimo Garotas Estúpidas. 

Não sei qual era o contexto da conversa quando ela disse essa frase, mas em mim,  despertou muitas sensações. Poderia dizer “gatilhos”, que é a palavra da moda. Fiquei parada lendo e relendo-a por um bom tempo. Pensei que o trabalho é minha fuga preferida e de tanto fugir, acabei me encontrando.

Nunca trabalhei com outra coisa, só com jornalismo e isso já é uma baita ostentação. Mas nem sempre amei meu ofício.

Como? Fui reprovada em inúmeros testes de vídeo para diferentes emissoras de TV. Já ouvi muitas vezes que meu projeto tinha total sinergia com a empresa mas, talvez, se outra pessoa apresentasse, ele teria mais chances de ser produzido e patrocinado. Já tive projetos roubados na cara dura por produtoras audiovisuais que fingiam negociar comigo. Já me senti extremamente explorada em trabalhos e não fui capaz de reclamar por medo sei lá de quê. Bom, saber eu sei. A gente sempre sabe. Mas fingir também é fuga. 

O fato é que essa frase me fez questionar minha relação com meu próprio trabalho, por um momento. Afinal, a síndrome da impostora é democrática, não é mesmo? 

Aos 10 anos, já queria ser jornalista e trabalhar em TV. As imagens do Pedro Bial cobrindo a Guerra do Golfo pra Globo passavam, quase que diariamente, no Jornal Nacional naquele longínquo 1991 e elas foram as primeiras faíscas da minha fogueira. Sem qualquer letramento racial naquela época (e até cinco ou seis anos atrás), achei que bastava me esforçar que o “Boninho” (ou algum outro diretor) me faria uma proposta irrecusável do tipo “apresentar o The Voice” (ou outro programa tão informal quanto). Ainda não sei dizer se era ignorante ou extremamente inocente. 

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Dos 10 aos 41 anos, muita água rolou debaixo da ponte. Fiz jornalismo, duas pós-graduações, uma dezena de cursos de extensão, mestrado fora do país e muitos projetos jornalísticos, mas nunca consegui trabalhar na TV. 

Conquistei um espaço de bastante prestígio dentro do meu segmento, o jornalismo cultural. Trabalho há mais de uma década no rádio, apresentando e fazendo a curadoria musical do FARO e do RÁDIO RETRATO, programas transmitidos pela Nova Brasil FM, e também apresento um canal no Youtube chamado PAPO DE MÚSICA, onde entrevisto personalidades ligadas à música. Sou completamente apaixonada pelo que faço, mas discordo de Confúcio (se é que a frase é dele mesmo) quando ele afirma que ao escolher um trabalho que você ame, não terá que trabalhar um único dia de sua vida. Eu trabalho muito mais dias do que gostaria. 

A gente se esqueceu que a ideia inicial era conexão e não alienação em massa.

Nunca trabalhei com outra coisa, só com jornalismo e isso já é uma baita ostentação. Mas nem sempre amei meu ofício. Aliás, durante muito tempo fui muito infeliz no trabalho. O turning point não veio de uma hora pra outra, mas viagens pelo mundo, terapia, amigos conselheiros e uma decepção amorosa me fizeram crescer para dentro de um jeito tão profundo que não cabia mais nos espaços que o mundo me impunha. Resolvi mudar tudo quando o Retorno de Saturno deu as caras. 

Compartilho parte da minha história aqui, de maneira sincera, porque a internet é um meio que nos incentiva à performance. Todo mundo veste sua melhor roupa, abre a garrafa de vinho mais cara de sua adega e esfrega na cara do facefriend como felicidade é só questão de ser/ter. A gente se esqueceu que a ideia inicial era conexão e não alienação em massa.

Calma, não sou dessas que demoniza a internet. Ao contrário, já me conformei com muita coisa. Numa rede onde todo mundo é PHD em tudologia, é difícil separar o joio do trigo. Por isso gostei de ser impactada pela postagem da Camila Coutinho mesmo sem segui-la. Obviamente após esse post, passei a segui-la. 

Tenho pensado muito na minha responsabilidade como produtora de conteúdo e, especialmente, nesta ostentação leviana que eu também promovo, de certa forma. Mas aonde isso vai dar, já parou pra pensar? 

Deveríamos repensar no que nos liberta e no que nos aprisiona

Depois de tudo que vivemos, no coletivo (SOS, Brasil!) e no privado, deveríamos repensar no que nos liberta e no que nos aprisiona. Pensar mesmo, à vera. Todos os dias pela manhã tenho a certeza de que meu perfil no Instagram desaparecerá ao cair da noite. Sei o quanto ele me aprisiona. Fracasso diariamente, mas ele segue ativo. A verdade é que só uso o Instagram para ostentar meus trabalhos. Ok, às vezes ostento minhas férias também. Mas ostentar para quem? Por quê? Qual o preço que pago para ver e ser vista apenas sob uma ótica recortada? Por que passar uma imagem que não me representa em 99% do tempo que tenho?

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“A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história”. Gosto dessa frase da escritora e pensadora Chimamanda Ngozi Adichie, porque ela me expulsa da realidade paralela e me situa de um jeito preciso. 

Colecionar diplomas também faz parte da minha ostentação profissional – embora reconheça minhas muitas vantagens sociais, não tenho o privilégio branco, aquele que abre todas as portas tanto para homens quanto para mulheres, nem sobrenome, esse capital social poderoso -, mas de uns tempos para cá, entendi que até eles são uma tentativa desesperada por um pertencimento que não vai rolar nunca. Não, isso não é pessimismo. É a realidade sendo observada pela lente de uma lupa letrada. 

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E o que faço com essa descoberta? Continuo trabalhando e dando o melhor de mim. Num momento em que o jornalismo profissional vem sendo diariamente atacado por parte da sociedade e por políticos de extrema direita, sinto-me obrigada a exercer meu ofício com ainda mais afeto, coragem e didática. Disseminar informação, seja ela qual for – desde que não seja fake – é prestação de serviço e essa é a base do jornalismo no qual  acredito.

Nunca compactuei com essa divisão clássica (cafona e excludente) entre arte e entretenimento, alta cultura e baixa cultura, programação de rádio e tv públicas e privadas, primeiro caderno e segundo caderno, jornalismo sério e cultural. Com toda minha ignorância (ou sabedoria), só sou feliz como profissional ou cidadã quando aprendo, sinto e ensino – não necessariamente nesta ordem – com coração e cérebro de mãos dadas. 

Minha ostentação profissional precisa estar alinhada com as demandas da sociedade. Do contrário, é só ego.

Vivemos na era da internet, fato. Mas isso não é uma realidade para todo mundo como insistem em nos fazer acreditar. No Brasil e em muitos outros países do mundo, o acesso à internet não é igualitário, pois as regiões mais pauperizadas não têm o mesmo acesso que as áreas nobres das grandes cidades. Aproximadamente 1/3 das casas no Brasil não têm acesso à internet e isso não deveria ser novidade para ninguém já que moramos num país em que quase metade da população (47%) não tem acesso à rede de esgoto (os números são do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, referentes a 2020). Aos trancos e barrancos, entendi que minha ostentação profissional precisa estar alinhada com as demandas da sociedade. Do contrário é só ego. 

Como produtora de conteúdo, comecei a desenvolver uma linguagem mais democrática para falar com o maior número possível de pessoas. Quando falamos em produção de conteúdo, automaticamente pensamos em pessoas que estão na internet apresentando seus próprios canais. Mas os profissionais da área são todos que estão no rádio, na TV, no jornal e/ou escrevendo para sites. Praticamente tudo que se é produzido hoje em dia se transforma em conteúdo digital (Youtube, podcast, reels, etc) e os algoritmos nos obrigam a produzir mais e mais se quisermos ter uma grande audiência. 

Em 1967, Caetano Veloso já nos perguntava: quem lê tanta notícia? Sessenta e cinco anos depois, refaço a pergunta:  quem consome tanto conteúdo digital? 

Será que não é melhor produzir menos e investir na qualidade dos conteúdos? Por que é interessante falar com tanta gente? Qual a sustentabilidade emocional da sua produção? Reconheço as benesses do pertencimento digital, mas se para tê-lo for preciso ser escrava do algoritmo, prefiro ostentar meu trabalho na mesa do bar como faziam meus pais. Empreender é mais difícil do que as matérias publicadas nas revistas e nos jornais insistem em nos fazer acreditar. A minha vida acontece quando estou off.

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