Seu Trabalho

Você tem vergonha do seu trabalho?

Quem responde é Mayumi Sato, diretora de marketing da maior rede social de sexo do Brasil, que já teve dificuldade de falar sobre o que fazia e hoje é porta-voz da sexualidade positiva

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“As pessoas têm preconceito com o que eu faço, fico sem jeito. Escondo ou explico?” G.P. vendedora de sex toys

Eu te entendo. As pessoas tinham, e muitas ainda têm, preconceito com o que eu faço. Eu trabalho com sexualidade há seis anos e, acredite: nessa época era tudo mato. Não tinha gente falando de sexo como hoje, a partir de perspectivas positivas, muito menos feminina. Muitos estavam (ou ainda estão) amarrados àquela ideia antiquada de que sexo se resume a pornografia ruim: depravação, desrespeito, vergonha e violência. Não foi fácil ultrapassar essa barreira inicial pra mostrar que há vida pra além dos exemplos ruins – que durante muito tempo foram os únicos exemplos disponíveis. 

Sexo, na internet e na vida de muitos, se resumia à pornografia mainstream: aquela que migrou das locadoras de VHS para o on-line. Há pouco tempo descobrimos que ela não serve pra nos educar sobre o que fazer e o que não fazer na cama. A ideia de que esse conhecimento teria que vir de outras fontes, é muito recente e ainda estamos lidando com as consequências desse cenário todo. É fácil? Não! Mas, exatamente por isso é um desafio animador! 

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Quando assumi o projeto do Sexlog.com, encontrei uma maneira de unir o útil ao agradável, usar as ferramentas que tinha do trabalho em agências de publicidade, com um assunto que eu curtia. Mas a euforia durou pouco. Tentei aplicar tudo o que eu sabia sobre comunicação e já tinha dado muito certo em outros projetos e dei de cara com um muro alto, quase intransponível, feito todinho de tabu. Começava uma longa e árdua escalada. E ai, eu expliquei pra muita gente o que eu fazia. Desenhei, discuti, escutei. Percebi que me colocar fazia parte.

“Fale muito e aproveite a sua voz pra acabar com o preconceito”

Mas veja, foi difícil. Da primeira vez em que disparei um release para a imprensa, por exemplo, a maior parte dos contatos me bloqueou e outros tantos responderam indignados por eu ter sugerido uma pauta sobre sexo. As próprias assessorias de imprensa, até as mais famosas e moderninhas da época, negaram trabalhar conosco. Comprar anúncios, tráfego, banners, fazer propaganda, tudo se mostrou impossível. Nada do que é muito comum parecia estar disponível pra nós, então tínhamos que inventar o nosso próprio jeito de ganhar espaço e notoriedade. 

Foi nesse processo que me tornei porta-voz da empresa e descobri que, nesse meio, um CNPJ não abre tantas portas, mas um CPF sim! Há seis anos, ninguém acreditaria que seria possível levar a nossa mensagem de sexualidade positiva para a televisão, para um TEDx, eventos sobre inovação e tecnologia, redes sociais tradicionais e até para um podcast que hoje tem quase um milhão e meio de ouvintes.

Fico feliz em fazer parte de um movimento que começou a tratar do assunto de forma natural em lugares onde antes tudo se resumia a piadas, preconceito ou vergonha de falar sobre o nosso trabalho. E isso só ocorreu porque mulheres antes de mim enfrentaram com bravura situações muito mais difíceis. Me sinto parte dessa corrente e continuo com o objetivo de falar de sexo evidenciando o que deixamos pra trás todo esse tempo: conexão, autoconhecimento, prazer, amor, respeito e liberdade! Então, minha dica é: fale, fale muito e aproveite a sua voz pra acabar com esse preconceito que ronda o que você faz! 

* Mayumi Sato mirou nas exatas, mas foi trabalhar com sexualidade. Pra não perder a viagem, se tornou IBGE do sexo. Também é CMO de uma rede social adulta, colunista do Universa UOL e podcaster no Vida Não Mono

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