Suas Emoções

Você sabe o que é efeito backlash da pandemia?

Muita gente achou que com o fim do isolamento, e do momento mais grave, a vida voltaria exatamente no ponto onde parou em março de 2020. Mas isso não aconteceu e não é por acaso

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A pandemia arrefeceu, diminuíram as internações e as mortes. A sensação geral é de que o pior já passou – e talvez tenha passado mesmo. O medo de morrer, de perder (mais) pessoas queridas, a sensação de que precisamos lutar contra um mal maior, de fato se dissiparam. Mas, diferente do que muita gente pensava, a vida não voltou ao que era. Muitos estavam na expectativa de sair do pause, como se vivêssemos num filme que voltaria a passar exatamente de onde parou. Mas a verdade é que questões mentais, conjugais, parentais e profissionais importantes têm mostrado que os efeitos da pandemia não são só aqueles relacionados às consequências da Covid-19 em si. Se você está estranha, respire, você não está sozinha. 

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“Acreditávamos que voltaríamos para grandes encontros e aglomerações, quando, na real, a maioria de nós se encontra em um fadiga social”, comenta a psicóloga Natália Silva, do grupo Reinserir Psicologia. “Pensamos que as relações, os moldes de trabalho, o corpo e a mente estariam aptos para dar continuidade, quando, na verdade, não estão”, completa. Também é preciso lembrar que dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicaram um aumento de 25% nos casos de depressão e ansiedade durante a pandemia – e a gente sabe que problemas mentais têm cauda longa.

A estudante Laiza Ferreira, é uma que tem tido dificuldades para lidar com o cenário atual. “A pandemia deixou marcas profundas, como o medo, a insegurança em relação a sonhos e planos. Sinto que não estou bem com meu corpo e minha mente… Tudo isso causa um sentimento de frustração e baixa autoestima. Tenho uma sensação  de estar sozinha mesmo quando não estou”, relata. 

Algumas pessoas têm apelidado esse momento de “backlash da pandemia”, o que significa uma reação ou efeito de algo que já passou. Nesse caso, o efeito do stress, do medo, do luto, do isolamento que passamos nos momentos mais críticos mexe na saúde mental hoje. A psicóloga explica que esses sentimentos são coletivos e que são reflexos do cenário pós-traumático. O cansaço, a angústia e o luto que não conseguimos digerir pela correria do dia a dia vão aparecendo agora, tudo de uma vez. Muitos sintomas são, inclusive, psicossomáticos – e vale ficar de olho. “Dor no corpo, manchas, dor de cabeça, coceira na pele. Esses sinais vão contando para gente que tem algo aí que precisa ser observado”, completa. E atenção especial no caso de pessoas que estão muito isoladas da família e da rede de apoio. “Quando se tem medo e dificuldade de sair, é preciso ligar o alerta”, destaca Natália. 

“Achei que o problema era eu, mas agora vejo que estamos todos no mesmo barco”

Um dos principais fatores para esse “novo normal” pós-pandemia é a fobia social. E por mais que alguns se acomodem nela como se fosse um alívio não querer encontrar outras pessoas, é preciso olhar pra isso, já que na maioria das vezes essa esquiba vem de um medo intenso, de uma forte ansiedade ou insegurança gerados pela pandemia. 

A história de Laíza passa por aí: ela sempre foi muito sociável e, mesmo diagnosticada com depressão na pandemia, não via hora de reencontrar os amigos.  Porém, o sentimento de expectativa, tornou-se uma inibição social. “A complexidade da pandemia e a rotina monótona fez com que, neste momento, tão esperado, eu acabasse me afastando de pessoas próximas”, relata. “Também tive muita dificuldade de iniciar novas relações. Me senti insegura e vivenciei sentimentos de vulnerabilidade e incerteza. Aliás, por muito tempo, achei que o problema era eu, mas agora vejo que estamos todos no mesmo barco”, completa. 

A psicóloga Bruna Dias aponta a fobia social como um dos principais resquícios da pandemia. Ela é paralisante, faz com que as pessoas evitem situações que a coloquem em evidência, em algum riscos ou à frente de algo possivelmente constrangedor. Só que, ao invés de funcionar como uma autoproteção, a consequência é o afastamento das demais pessoas, o receio exacerbado de relacionamentos interpessoais e uma dificuldade de vivenciar novas oportunidades. O que evidencia, de acordo com ela, um paradoxo: “O isolamento social que veio para o nosso cuidado, é também um fator contribuinte para a crise de saúde mental que estamos passando. E são nestes casos que as pessoas precisam de todo o suporte emocional, do outro e de si mesmo”, aponta. 

Dias ressalta que não são casos isolados. “Tenho atendido vários pacientes que estão em tratamento e que estão tentando se recolocar socialmente. Mas agora é tempo de autocuidado, aceitação, pois a pandemia existiu e precisamos analisar o que fazer, com o que ela nos deixou. Esse é o nosso momento atual, então eu parto do princípio do cuidado”, afirma. 

Como se poupar?

Respeitar os próprios limites, se reconectar com as pessoas, se permitir acolher e ser acolhida, e ter um espaço seguro de trocas, é o que Natália aponta como caminhos possíveis após esse embate de emoções. “Em alguns casos pode ser necessário o uso de medicação, inclusive, dentro de um processo terapêutico”, aponta. “Às vezes, a pessoa está tão desorganizada e tão frustrada, que ela não consegue ver outras possibilidades. A psicoterapia pode ser uma super aliada nesse movimento de enxergar novas opções”, avalia. 

Bruna concorda ao dizer que o importante, neste momento, é olhar para dentro e entender que há contexto para o que estamos sentindo. Isso faz com que nos sintamos um pouco mais confortável em interagir, nos expressar e estar com outras pessoas. “Precisamos fugir dos pensamentos disfuncionais, é necessário buscar estratégias que nos empurrem para a autonomia e para a resiliência, tão necessárias para passar por momentos como uma pandemia e o seu pós. Seja fazendo yoga, buscando acolhimento no setting terapêutico ou praticando alguma atividade física”, diz.  

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