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Como a relação com o trabalho está se transformando

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Angélica recebe Lucas Liedke e André Alves, fundadores da Float, empresa de estratégias de pesquisa, que investiga sobre as novas configurações de trabalho que vêm se formando

Muita gente se questionou sobre a própria relação com o trabalho durante a pandemia. A necessidade do home office mostrou para muitas áreas que é possível, sim, trabalhar em equipe à distância.  Por outro lado, o desemprego cresceu bastante e a quantidade de empregos informais também. Nesse cenário cheio de desafios e transformações, Angélica conversa com Lucas Liedke e André Alves, fundadores da Float, uma empresa de estratégias de pesquisa, que vem investigando sobre essa nova configuração do trabalho. 

Se nos anos 1950 e 1960 era mais clara a separação entre vida pessoal e profissional, com o tempo começou a ocorrer uma mistura desses dois universos, combinado com cultura de competitividade muito forte que desembocou numa romantização do workaholic. Há cerca de dez anos, também veio muito forte a ideia de “trabalhar com o que você ama” e, com ela, o mito do empreendedorismo, de ter que correr atrás, ser autodidata, pontua Lucas. “Tudo foi ficando mais trabalhoso, orientado pelo desempenho, até as questões pessoais”, comenta André. 


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Nesses dois anos de pandemia, o trabalho remoto apareceu com uma força muito grande, já que muitas atividades passaram a ser realizadas a partir de casa, em isolamento. No entanto, aqui no Brasil, há um recorte social muito forte nesse quesito. “Enquanto as classes A e B conseguiram mudar o seu local de trabalho em 30%, quando falamos da classe D e E, esse número cai para 7%.” Há também a questão da informalidade que assusta, com um número alto de brasileiros trabalhando para aplicativos de entrega, sujeitos à precarização do trabalho. “Se a gente somar todas as plataformas de aplicativos, ela é o maior empregador do país”, comenta André. 

O Brasil é o segundo país com maior número de casos de burnout

E se há uma exaltação da possibilidade de home office por um lado, do outro existem questões que afetam o trabalhador e são pouco destacadas, como a falta de uma boa cadeira, silêncio e internet de qualidade, além da redução de salário em muitos casos. “Se perde um senso de convívio com os colegas de trabalho e as chances de você se tornar robô, que só responde a demandas de forma ininterrupta, é grande”, avalia André, que destaca que, segundo dados do ISMA-BR (International Stress Management Association), o Brasil é o segundo país com maior número de casos de burnout. 

Lucas então pontua que trabalhar é necessário e inevitável, mas que é válido questionar onde cabe o prazer, o descanso e a identificação com aquilo que se faz. “Eu sou só o meu trabalho? É uma mentira pensar que ao se trabalhar com que se ama, você não trabalha mais, porque na verdade isso vai ser para vida toda.” André complementa o raciocínio do sócio e avalia que estamos em meio a um paradigma importante. “Como vamos sustentar vidas menos centradas no trabalho? E será que não dá para ser só uma parte da sua vida para o trabalho ao invés da vida toda?”. Fica a reflexão. 

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