Seus Relacionamentos

Transar com um casal me abriu um universo inesperado de prazeres

A atriz e jornalista Marcela Casagrande, do Lambisgóia Cast, conta como embarcar em um ménage espontâneo fez com que ela entrasse em contato com os próprios desejos e se conhecesse melhor

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Sexta-feira. Pré-carnaval, pós-apocalipse. Me apeguei fortemente à frase “esta será a sexta-feira de todos aqueles que têm sede de viver”, da astróloga Madame Broona, e saí pela noite de verão. Um clube estilo anos 1980, paetês, glitters e muito beijo na boca – como tem sido de costume entre a geração +30 da cidade de São Paulo. Lá estava eu. Eu que nunca fui o modelo da garota monogâmica barroca exemplar, sempre me interessei em por pessoas. Pessoas tão interessantes. Pessoas tão plurais. Vi ele ali, parado, vestindo uma blusa justa de onça. Um gim a mais, uma pergunta de brincadeira. “É hétero?“. Risadas, um beijo e ele diz ”você precisa conhecer minha namorada”. Nunca fui de reclamar, mas, naquele momento, só disse um “talvez” e saí por aí. Realmente não estava interessada em poliamor até aquele momento. 

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Até que, no piscar das luzes, ela veio. Um sorriso gigante – e, eu juro: ela brilhava. Me disse “oi” e eu, parada, desconcertada com toda aquela beleza repentina e inesperada. Nos rendemos a beijos etílicos a três pelas próximas horas. Veio o convite para estender a noite na casa deles. Uma casa aberta, assim como os dois. Ares e decoração de uma casa na Bahia, só que no centro de São Paulo. Estou em um sonho?

A frase da astróloga cada vez mais palpável: “aqueles que têm sede de viver”. Eu estava praticamente sem sair de casa há dois anos, o que mais tinha naquele momento era SEDE. E me entreguei ao convite de um ménage. O primeiro que mudaria muito os meus pensamentos – e, com certeza, me mudaria pra sempre.

“O triângulo me deu todo o equilíbrio que um par nunca me permitiu”

Mãos entrelaçadas, fluidos misturados. Ele ágil com as mãos, ninguém ficava sozinha. Ela no controle e devorava. Éramos um. Nos fundimos em uma noite e uma manhã. Tudo era insaciável. Uma fome de três. Um desejo quase proibido, mas ali tudo escancarado. Dispostos e disponíveis. E como é difícil encontrar os dispostos! (Obrigada dispostos!).

A certeza de ser cortejada e desejada como nunca. Uma pausa para conversas sérias e risadas. E ali, uma intimidade espontânea, laços cruzados. Entrelaçados, gozados, e felizes. Porque sim, a vida às vezes nos pega desprevenidos e entrega presentes. As pernas trêmulas e uma chuva no jardim.Saímos. Tomamos a bênção dos céus. Nos permitimos e agradecemos. “Gente aberta”, como diria Erasmo Carlos

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Eu, que me achava tão vivida, mas descontrolada com sentimentos, me vi totalmente pega de surpresa e calma. Segura de mim, do meu lugar, de quem eu era naquele momento. Novos gozos. Novos arrepios. Novas sensações não imaginadas até ali. Um convite da vida a se experimentar e se conhecer. Reconhecer.

A vida é uma grande possibilidade de absolutamente tudo. Fomos criados em modelos de casais monogâmicos. Então, ninguém, por maior que tenha vontade, está 100% preparado para viver algo fora do pré-estabelecido. É difícil correr contra a correnteza a todo momento e não ter um modelo a se seguir. Parece tão mais fácil com regras impostas. Como se viver na incerteza fosse tão mais difícil. Mas te garanto que não é.

“Será que não há mesmo espaço para o terceiro elemento?”

Quando não se tem respostas para os questionamentos, você vive. Você para de temer. Você não enxerga grandes precipícios. Você vai andando pé ante pé. A sociedade cria as regras, mas e se a gente quiser novas regras? Como saber? É tudo um grande teste. Tentativas, erros, acertos. Um passo pra frente, um passo pra trás. É sobre respeitar espaços e, ao mesmo tempo, não se anular. É saber conviver e perder medos durante o processo.

Desde que o mundo é mundo, somos ensinados a ver o casal como modelo ideal. Disney, Barbie e Ken, Hollywood… Bíblia! Só basta lembrar da Bíblia, da história de Adão e Eva, perfeitos e pelados no paraíso… Chega a cobra e destrói o casal. Não há espaço para o terceiro elemento, ele já vem no imaginário como traiçoeiro para destruir a felicidade. Mas já pensou que talvez a cobra tenha vindo para a diversão, para mostrar novos sabores? A sociedade com sede de vingança da felicidade alheia. 

Uma coisa é certa: não devemos nos deixar parar por receios e preconceitos. A vida é, sim, de quem tem sede de viver. E no triângulo, o que já me pareceu improvável me deu todo o equilíbrio que um par nunca me permitiu. Se para eles mudou, não sei – não conversamos sobre isso –, mas entre delícias de carnavais vivemos e estamos por aí.

O grande aprendizado para mim é: vá. Grandes experiências e delícias te esperam nessa vida, mesmo que você não esteja esperando. Seja à dois, três, ou no modelo que você quiser e desejar (e, por favor,  deseje muito). 

E se nos ver por aí, juntos, saiba que ali fomos muito felizes – e a qualquer momento entraremos em erupção.

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