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Chega de horóscopo: sinais de que casais podem dar certo, segundo a ciência

Fazer o mapa astral do crush não é garantia de nada. Há mais coisas entre o seu coração e quem de fato o outro é do que podem apontar as previsões. Então, recorremos a pesquisas e especialistas para te ajudar na busca pelo amor, mas fica o spoiler: é impossível ter controle de tudo.

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A tampa da panela. A metade da laranja. O match perfeito. O ideal de amor romântico resiste ao tempo e até se reinventa – no TikTok, por exemplo, a hashtag do momento é a “Rules For Dating”, trend com quase 2 milhões de views em que jovens dão dicas de como conquistar o parceiro já nos primeiros encontros. Pois é, viver o “felizes para sempre” é um desejo que ultrapassa gerações e que nos leva a buscar, até nos astros, a fórmula para o relacionamento dos sonhos. Atire a primeira pedra quem não pediu, ainda no momento da paquera, o signo do pretendente. Como se coubesse aos céus dizer com quem devemos (ou não) nos envolver.

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Acontece que nem sempre a previsão astrológica funciona e muitos casais “astralmente perfeitos” acabam se comportando como rivais. Pudera: as relações amorosas são mais complexas do que qualquer previsão. Tanto que a ciência também se dedica a estudá-las. Daí surgem várias pesquisas: as que separam os parceiros em categorias comportamentais, as que insinuam que fatores genéticos tem, sim, a ver com a durabilidade do relacionamento, as que categorizam relações segundo “tipos”… e por aí vai. Demos uma mergulhada profunda em algumas delas para descobrir o que se sabe até agora sobre relacionamentos duradouros e encontramos algumas respostas. O que motiva, então, casais a ficarem juntos?

Vênus em comprometimento

De acordo com um estudo publicado em 2020 na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences, respeitada publicação americana), que analisou respostas de 11.196 casais e cruzou dados de 43 bancos de dados, para identificar o que os casais felizes têm em comum. O fator que mais determina essa satisfação é: acreditar no comprometimento do parceiro com a relação. Em seguida vieram admiração pelo outro, satisfação sexual, saber que o outro está satisfeito sexualmente e, ainda, capacidade de lidar com conflito.

O que conta no relacionamento é o quanto o outro me faz bem

A neurocientista Claudia Feitosa-Santana, autora do livro Eu controlo como me sinto, avalia. “O que conta no relacionamento não é a minha personalidade ou a do parceiro – afinal de contas, nós mudamos com o tempo e nossas respostas químicas ao outro também –, mas, sim, o quão bem ele me faz”, resume. A pesquisa identificou, ainda, que fatores individuais que normalmente interferem na qualidade de um relacionamento (como um dos pares ter depressão ou ansiedade) podem ser “superados” quando a relação é saudável e traz segurança para os envolvidos.

Destino traçado na maternidade?

Aos que ainda estão à procura de um parceiro, a ciência traz algumas hipóteses para explicar o que torna uma pessoa atraente para o outro. O fator mais comum é a sensação de segurança. Uma pesquisa realizada pelo psicólogo Chris Fraley, da Universidade de Illinois, e publicada no periódico Personality and Social Psychology Bulletin em 2020, reforça a tese que nosso cérebro tende a gostar daquilo que é familiar. Ele realizou três experiências com voluntários. Em um desses testes, os participantes eram orientados a ver fotos de estranhos e dar notas mais altas para pessoas que julgassem atraentes. Antes de algumas imagens serem mostradas, metade do grupo foi exposto a retratos ou da própria mãe ou do próprio pai. Elas apareciam por apenas 17 milisegundos, o suficiente para serem captadas pelo cérebro, mas não para eles terem consciência do que viram. Qual foi o resultado? Os voluntários deram notas melhores aos rostos apresentados imediatamente após a foto subliminar de seus familiares. 

De forma inconsciente, construímos “modelos mentais” de parceiros com quem sonhamos nos conectar

Na visão do neurocientista e biólogo Fabiano Agrela, essa busca pela familiaridade não é apenas física, mas também emocional. De forma inconsciente, construímos “modelos mentais” de parceiros com quem sonhamos nos conectar. “E aqui não me refiro apenas a características estéticas, mas também traços comportamentais que nos trazem ‘familiaridade’, como características emocionais, cheiro, tom da voz, etc, que se encaixam no design armazenado na nossa mente”, analisa.

Porém, fica um alerta! Esse modelo mental acaba causando certa idealização do parceiro. “Nós ‘inventamos o outro’ (e o outro também inventa a gente). Só que, ao longo do tempo, as máscaras caem e as pessoas começam a ser mais ‘reais’, com suas respectivas diferenças”. É nessa hora que surgem os conflitos e, por consequência, a saúde do relacionamento cai… Daí em diante, não há sincronia entre os signos que garanta a harmonia da relação. 

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O inferno (astral) é o outro

Essa “ilusão” primária com o outro pode ser explicada pela neuroquímica. Assim que conhecemos uma pessoa por quem nos atraímos fisicamente, o cérebro libera dopamina, neurotransmissor que provoca uma felicidade intensa e anestesiante, e adrenalina, que nos deixa em alerta, por isso o coração acelerado. “A paixão traz sempre muito apelo físico, impulsos emocionais de urgências, sentimentos intensos e poucos racionais. Assim, não conseguimos ver o verdadeiro outro. Nos interessamos por um ideal”, analisa Fabiano. 

“Uma coisa é o encontro (a paixão) e outra é inscrever esse sentimento no tempo”

Com relações de longo prazo, os níveis de dopamina e adrenalina caem, sendo “substituídas” pela ocitocina, o hormônio da família e do cuidado. Segundo o neurocientista, casais ponderados, que vivem a fase da paixão com certa maturidade, conseguem analisar com mais facilidade essas mudanças comportamentais e avaliar melhor as diferenças. Na visão da psicanalista Ana Suy, que recentemente lançou o livro A gente mira no amor e acerta na solidão, cada experiência amorosa é única e, por isso, é difícil de criar fórmulas – ou mapas astrais – que determinem se uma relação vai dar ou não certo. “Uma coisa é o encontro (a paixão) e outra é inscrever esse sentimento no tempo”.

Ela defende que, para que um relacionamento dure, é preciso fazer certas renúncias. “Crescemos com a fantasia de que existe a pessoa certa, feita sob medida para nós, que basta crer que a encontraremos e, então, viveremos felizes para sempre”. Para a psicanalista, é o contrário. “Todo amor duradouro carrega consigo uma quantidade de ódio – não no sentido de sentir raiva, mas de identificar diferenças e estar atento que o outro é outro”. Fica o aprendizado: é preciso estar disposto a lidar com o imperfeito para viver um grande amor.

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Sol na casa incerteza

Ana Suy classifica o amor como uma experiência que vai contra o tempo atual, no qual buscamos fórmulas e signos para resolver equações complexas. “Temos experienciado as relações amorosas sob a lógica do consumidor, como se o produto (no caso, o parceiro) tivesse sempre que satisfazer as nossas necessidades”. Caso contrário, o relacionamento pode ser descartado.

“O amor é incerteza. Tem um pouco de descompasso, da entrega pro incerto”

André Alves, psicanalista criador do projeto Float, concorda: “Vivemos em um período de busca incessante pela confirmação. Se você gosta daquilo que aparento ser, deslize para o lado para provar que somos perfeitos, o match ideal. É um momento de sexualidade serializada, pulamos de parceiro em parceiro sempre procurando aquele que é perfeito para a gente.” Ele avalia que os aplicativos de relacionamento ajudaram a anabolizar o ideal da ‘tampa da panela’, que não existe na vida real. É preciso lembrar que relacionamento é, sobretudo, construção. “O amor é incerteza. Tem um pouco de descompasso, da entrega pro incerto. A gente gasta muito tempo nessa ideia de encontrar a pessoa ideal. Só que o trabalho do amor começa, de verdade, depois de que encontramos o amor”, analisa. 

O “par perfeito” pode até não existir, mas, como dissemos logo no começo, a ciência já provou que o que sustenta uma relação a longo prazo é a satisfação com a mesma. Para alcançar a tal “felicidade conjugal”, especialistas sugerem diálogo. Há ainda aqueles que recomendam uma pitada de conflito, como André: “O oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença. A partir do momento que os parceiros deixam de se ‘afetar’, o amor acaba. Por isso, é importante respeitar as diferenças, entendê-las e, assim, trabalhar em cima das discordâncias”. Talvez a resposta para o amor eterno não esteja nas estrelas, mas sim nas entrelinhas. 

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