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Sorria: Trabalho remoto vigiado

Empresas investem em softwares para ficar de olho nos funcionários durante o home office e criam um novo inimigo para a saúde mental. Conheça alguns casos e saiba como se proteger

Seu Trabalho / Reportagem Por:
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Se tem uma palavra que resume o estado de uma galera que passou a trabalhar em home office nos últimos anos, essa palavra é ansiedade. Além de ter que se adaptar a um modelo sem contato presencial (o que foi a glória para alguns, mas causou desespero em outros), muitos passaram a ter a produtividade – e eventualmente a vida pessoal – monitorada por programas de computador. Perdemos o que restava de confiança e passamos a pautar as relações de trabalho pelas metas propostas pelas ferramentas. O controle atingiu níveis altíssimos e foi inevitável nos perguntarmos: precisa tudo isso?

“Ainda estamos vivendo um momento de transição no mercado, em que nem os empregadores nem os colaboradores sabem bem como agir. Na falta de ferramentas de gestão, vieram as ferramentas de controle, seguindo um modelo de trabalho pautado pela pressão e não pela confiança”, diz Alexandre Pellaes, mestre em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP e fundador da Exboss, consultoria especializada em novos modelos de gestão de trabalho. A sensação de quem passou a ter os passos controlados foi desesperadora e lembra uma escola caricata dentro de um filme de terror.  

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Em 2021, Joana* viveu uma experiência traumática por conta da vigilância no home office. Começou a trabalhar em uma empresa da área financeira e, em pouco mais de um ano, desenvolveu enxaqueca por estresse e passou a tomar remédio controlado para dormir. “Tinha que ficar das 8 às 20 horas conectada no Microsoft Teams (aplicativo de videochamadas), ouvindo tudo o que as outras pessoas conversavam, inclusive, intimidades e fofocas”, conta ela, que chegou a ter um princípio de Burnout. 

45% das pessoas admite estar trabalhando mais que o teto de 44 horas semanais previsto pela legislação brasileira

“Não conseguia me concentrar nas operações, praticamente tinha que pedir para usar o banheiro, comer e buscar entregas na portaria”, conta Joana.  Se não avisasse das saídas rápidas, recebia mensagens no celular pessoal cobrando sua presença. O que começou como uma forma de fazer com que os funcionários interagissem mais, acabou virando um controle, avalia. 

Cerca de 73% das pessoas estão satisfeitas com o trabalho remoto, porém 45% admite estar trabalhando mais que o teto de 44 horas semanais previsto pela legislação brasileira, aponta pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, divulgada em 2021. No primeiro ano da pandemia, o número de afastamentos causados por doenças como depressão e ansiedade teve alta de 33,7% em relação a 2019, segundo dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho.

Hipervigiado, eu?

Mas nem todo mundo está disposto a ceder à pressão da vigilância máxima. O que não falta é criatividade na hora de enganar os softwares. São técnicas que vão do básico (como colocar um peso em cima do teclado para simular digitação) ao avançado (como terminar uma tarefa e deixar o cronômetro rolando enquanto aproveita para dar aquele pulinho no mercado). “Toda vez que você colocar um nível de controle excessivo sobre o ser humano, ele vai dar um jeito de hackear o sistema”, garante Alexandre. 

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O desenvolvedor de software Victor* trabalha remotamente para uma empresa estrangeira que utiliza a Crossover, uma plataforma que coleta dados para checar a presença e medir a produtividade dos funcionários. “Ela rastreia as atividades que faço, os sites em que navego, além do controle por imagem. A cada dez minutos, a webcam tira uma foto para comprovar que estou em frente ao computador. Tenho direito a estar ausente em cinco fotos por dia e já fui advertido por ultrapassar esse limite”, conta. Para ele, é o mesmo que ser monitorado presencialmente e acaba aceitando esses termos porque ganha em dólar – vale a pena financeiramente.

“Existe uma desumanização muito grande, como se você fosse um robô atrás da tela”

A falta de transparência em relação ao uso dos dados dos colaboradores também pode gerar um mal-estar constante, como conta Renata*, que trabalhou por alguns meses em uma empresa de tecnologia durante a pandemia. “Todas as conversas eram feitas por meio do Slack [plataforma de comunicação empresarial], mas eu não tinha certeza sobre o nível de monitoramento. Quando fui demitida, alegaram que eu não ficava tempo on-line o suficiente, mesmo entregando todas as tarefas”, conta. 

Outra preocupação foi com os arquivos e dados pessoais salvos na máquina da empresa. “Depois de dez minutos da demissão, meu computador já estava bloqueado, não tive tempo nem de deslogar do meu e-mail”, relembra Renata. “Quando você fica 10, 12 horas por dia em frente ao computador, é inevitável acessar o WhatsApp ou outra conta pessoal. Existe uma desumanização muito grande, como se você fosse um robô atrás da tela”, reflete. 

Limbo na lei

“O empregador não sabe até onde vai o poder de vigilância e o trabalhador também não tem a maturidade para esse tipo de trabalho. Todo mundo está tendo que aprender na prática”, avalia a advogada trabalhista Érica Toledo. O mesmo acontece no campo jurídico. “Existe um limbo quando o assunto é o monitoramento do trabalho remoto. Não há uma regulamentação que defina os limites sobre o que é ou não invasão de privacidade”, pontua. Os advogados só vão conseguir ter um posicionamento coletivo quando esse tipo de problema for levado ao judiciário.

“O problema é quando as lideranças usam as informações coletadas pelos softwares para praticar assédio moral”

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, sancionada em 2018, define que os empregadores devem informar e justificar a coleta de dados aos colaboradores. E mais: é preciso incluir essas informações no contrato de trabalho. No entanto, não é especificado o limite desse monitoramento. 

“A supervisão é necessária, até porque a empresa tem a obrigação de garantir condições saudáveis de trabalho, evitando, por exemplo, que a pessoa trabalhe mais horas do que deveria ou que ela use a máquina da firma para cometer crimes cibernéticos”, comenta Érica. O problema é quando as lideranças usam as informações coletadas pelos softwares para fazer cobranças excessivas ou praticar assédio moral, ressalta.

Quer identificar e se proteger da hipervigilância? A advogada dá dicas: leia o contrato de trabalho e suas atualizações, reporte (sempre por e-mail) situações de desconforto aos gestores ou canais de denúncia e o mais difícil: evite tratar de assuntos pessoais no computador da empresa. “O funcionário precisa ter claro que, se está usando uma máquina que não é dele, está exposto ao monitoramento. Imagine acessar um link pessoal e acabar facilitando um ataque cibernético? A empresa vai querer fazer uma varredura completa para entender o que aconteceu”, explica Érica. 

Novas negociações

Se o home office prometia horários flexíveis e liberdade para realizar outras atividades ao longo do dia, na prática, acabou impondo uma rotina ainda mais limitada em alguns setores. A boa notícia é que a comunicação no mundo do trabalho tende a melhorar. A advogada diz que não é vantajoso para empresa lidar com o problema depois que o colaborador entra na Justiça ou quando já está com a saúde comprometida. “Muitas vezes, o diálogo resolve o problema”, garante. Depois de dois anos nesse cenário, as empresas estão revisitando as ferramentas e renegociando os espaços de autonomia dos funcionários”, concorda Alexandre.

É preciso criar espaços de troca, compaixão e empatia

Ao que tudo indica, o futuro das relações de trabalho não está no aperfeiçoamento de tecnologias de monitoramento, mas na melhoria das relações humanas. “Não podemos pensar que no trabalho remoto ou híbrido as pessoas são máquinas de performance que só entregam, entregam e entregam. É preciso criar espaços de troca, compaixão e empatia”, defende o psicólogo.

*Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados

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