Ilustração: Elisa Pessôa
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Mentiram para nós: sair da zona de conforto é roubada

Como escapar de um clichê que, se a gente parar pra pensar, prega a produtividade tóxica

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Mentiram para nós: sair da zona de conforto é roubada

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Como escapar de um clichê que, se a gente parar pra pensar, prega a produtividade tóxica

O ano é 2022 e quem está confortável está mal informado. Bom, pelo menos eu não estou. Você está? E olha que eu tenho uma série de privilégios: sou uma mulher branca de classe média, trabalho de casa há 7 anos, não tenho que bater ponto, sou dona do meu tempo e da minha empresa. Ainda assim, tudo me incomoda. Me incomodam os prazos curtos, as micro-agressões cotidianas, os atrasos de pagamento e o clima sempre muito tenso do meu mercado. Me incomoda o governo, a desigualdade crescente, a fome, o aquecimento global, a pandemia que ainda não acabou.

Aí a pessoa entra no Linkedin e está lá o coach (sempre ele) dizendo: saia da sua zona de conforto. Eu não conheço uma única pessoa que esteja nela. Com quem será que ele está falando? 

Ilustração: Elisa Pessôa

Hoje está desconfortável para gente demais: 14% dos brasileiros não têm emprego, a participação das mulheres no mercado de trabalho retrocedeu 30 anos durante a pandemia, uma em cada quatro pessoas não sabe nem se vai ter o que comer amanhã. Enquanto muitos estão na miséria, há uma epidemia de burnout na classe média alta, principalmente entre as mulheres. Nem os homens mais ricos do mundo parecem estar satisfeitos, já que estão colocando bastante energia em construir foguetes para fugir da Terra. 

O papo de “saia da sua zona de conforto” joga a felicidade para quando a gente “chegar lá”. Spoiler: “lá” não existe, ache sua zona de conforto e fique nela

Somos pressionados o tempo todo a querer mais, produzir mais, consumir mais, como se nossos corpos e o planeta fossem infinitos. Será que dá pra ficar confortável sem ter a roupa da moda, o carro do ano, um número x de seguidores, a família perfeita, o emprego dos sonhos? O papo de “saia da sua zona de conforto” só perpetua a produtividade tóxica, alimenta essa insatisfação e joga a felicidade para quando a gente “chegar lá”. Spoiler: “lá” é um lugar que não existe, ache sua zona de conforto e fique nela.

+ Veja também: A importância da periferia no debate sobre o clima

Na minha vida, tento seguir os preceitos da yoga e um deles é o Santosha, que significa contentamento. Estar contente com o que se tem é diferente de estar alegre: é buscar conter nosso estado de insatisfação e estar em paz com a nossa realidade. Também não tem nada a ver com estagnação ou falta de movimento. É manter-se mentalmente estável nos altos e baixos que compõem o caminhar da vida. Santosha pode ser entendido como a busca pelo conforto, sendo que dentro desse conforto tem que caber também tudo aquilo que não é bom, mas que a gente não conseguiu mudar ainda. Fácil não é. 

Essa busca, pra quem já tem as necessidades básicas atendidas, passa por conseguir dizer: já tenho o suficiente. Assumir pra si: “não preciso de mais, posso estar contente com o que tenho” é a minha ideia de sucesso e a zona de conforto que eu quero pra mim e para todos. É isso que nos permite levantar da mesa para outras pessoas sentarem, acreditando que vai ter o suficiente pra todo mundo. Enquanto não chegarmos nisso, vamos continuar produzindo uma sociedade em que alguns têm muito mais do que precisam enquanto outros estão absolutamente desconfortáveis.

O nosso grande desafio coletivo é construir a zona de conforto e ficar nela, sabendo que não vai estar confortável pra ninguém enquanto não estiver confortável pra todo mundo.

* Thaís Fabris é fundadora da 65/10, consultoria criativa especializada em comunicação com mulheres e porta-estandarte do Bloco Pirata.

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