A filosofia do amor-próprio pode afastar relacionamentos saudáveis - Mina
 
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Como a filosofia do amor-próprio pode nos afastar de relacionamentos saudáveis

Gostar de nós mesmos é importante, o problema é quando isso vira uma busca eterna pela perfeição que nos impede, inclusive, de nos fazer vulneráveis perante o outro

Por: e
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Amar-se o tempo todo. Ser a sua melhor versão: forte, com a pele bem tratada, o yoga em dia e uma carreira exemplar. Independente, estilosa e empoderada. Para muitos, isso é o que é ser uma mulher “legal” em 2022. Tão apaixonada por si mesma que não deixa nada de ruim acontecer a ela, construindo um castelo de proteção ao redor do próprio ego. Sempre perfeita e intocável. 

Com o advento das redes sociais e de correntes de positividade tóxica, a filosofia do selflove foi transformada em um imperativo: ame-se acima de tudo e de todos. E, assim, fugimos de tudo que possa nos desviar do objetivo de ter a vida dos sonhos, o emprego dos sonhos e o amor dos sonhos, “aquele” que merecemos. Afinal de contas, investimos demais na gente para aceitar menos do que um príncipe (ou princesa) encantado que combine com a paleta de cores do nosso Instagram.

Quando foi a última vez que você se permitiu ser vulnerável em um relacionamento?

Só que o post motivacional sobre amor-próprio que circula no Instagram esquece de avisar que amar exige risco. Mais do que isso, exige vulnerabilidade. E uma pessoa obsessiva pela melhor versão de si mesmo não pode estar aberta ao imprevisível. Me diz: quando foi a última vez que você se permitiu ser vulnerável em um relacionamento?

Afetar e afetar-se

Antes de escrever esse texto, parei para pensar. Na condição de mulher branca, de classe média e com acesso a esferas privilegiadas da sociedade, o discurso do amor-próprio aparecia na minha bolha sempre que precisava dar conselhos amorosos a outra mulher. Perdi a conta de quantas vezes repeti a frase “você precisa aprender a amar a si mesma, caso contrário o outro nunca te amará” a colegas em situação de desamparo emocional sem me dar conta de que estava criando uma nova pressão na cabeça delas.

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Para Ana Suy, psicanalista e autora do livro A gente mira no amor e acerta na solidão, muitas vezes esses discursos bem intencionados acabam soando vagos: “Essa exigência do autoamor é uma cobrança injusta com a gente mesmo, como se pudéssemos nos completar”, destaca. Porém, essa ideia de completude não passa de fantasia, garante a psicanalista: nós não somos completos. “Somos, na verdade, seres em constante transformação, que mudam, que deixam de gostar de algo, que passam a gostar de outra coisa, que lidam com faltas… Isso sem falar que, enquanto seres sociais, somos constantemente afetados por terceiros.”

A obsessão pelo eu “anabolizado”

Basta rolar a timeline de qualquer rede social para esbarrar com mensagens de amor-próprio. Da blogueira fitness ao influenciador que ficou rico de uma hora pra outra, o sucesso só aconteceu “porque eles aprenderam a se amar”. “Parece que precisamos estar sempre no topo. Não só performar melhor, mas amar-se o tempo todo”, diz o psicanalista André Alves, criador do podcast Float Vibes. “Sucesso é alcançar esse ideal de ‘eu anabolizado’ – legal, feliz e bonito –  e amá-lo o tempo todo. Nas redes sociais, no ambiente profissional, nas relações… É uma cilada”.

Seguindo o imperativo do “seja a sua melhor versão”, abrimos menos espaço para nossos próprios desejos

Ele relaciona a origem desse discurso ao neoliberalismo. Se na economia o movimento se desdobra através do mito da meritocracia (“você pode ter sucesso no que quiser, só precisa se dedicar”), no âmbito da intimidade, cria padrões inviáveis de beleza, sentimentos e relações.  “Estamos brincando que podemos ser perfeitos. Compramos o discurso que diz que, ‘se eu não estou no meu melhor momento, é porque não estou fazendo tudo direito’. Isso é opressivo”, sinaliza André. Seguindo o imperativo do “seja a sua melhor versão”, abrimos menos espaço para nossos próprios conflitos, desejos e dúvidas, não aceitamos a diferença e transformamos o outro em ameaça.

Permita-se falhar

“Homens nunca foram desestimulados a gostar de si – nós, mulheres, sim. Sempre nos falaram que nosso corpo não era amável, nossa personalidade, nossos traços… É por isso que somos o principal público alvo desse discurso raso de que basta se amar para tudo melhorar”, diz Ana Suy. 

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Para Natália Timerman, psiquiatra e autora do livro O copo vazio, ser feminista é abarcar a complexidade da mulher com suas falhas, dúvidas, faltas e incapacidades. “Fomos silenciadas e não amadas por tanto tempo que só agora nossas questões estão vindo à tona – o problema é que estamos indo parar em outro extremo”, enxerga. Amor-próprio, na visão dela, é saber identificar os próprios desejos e não silenciá-los. “É o contrário de tampar as próprias faltas, é permitir-se oscilar e permitir-se não estar bem o tempo todo”.

Como ter um relacionamento saudável?

O livro escrito por Natália aborda os riscos de ser vulnerável ao amor na atualidade, quando temos uma vida offline e outra online para administrar. Ele narra a história de uma mulher (Mirela) que se apaixona perdidamente por um desconhecido (Pedro) que desaparece sem deixar explicações e some sem responder mensagens (o tão temível ghosting). No decorrer da trama, a personagem busca encontrar ferramentas para lidar com a falta do outro enquanto tenta entender os próprios sentimentos. Não que a atitude de Pedro seja exemplar, mas a narrativa exemplifica o quão frágil pode ser uma relação. “O acontecimento erótico só se dá a partir de um outro que nos convoca à fragilidade. Desse modo, o amor prova que não somos completos. Experimentar o amor é ser convocado à insuficiência.”

“O verdadeiro laço se forma quando a gente consegue dividir até mesmo as nossas falhas”

Assim como não há fórmulas para o amor-próprio, também não há regras para que o relacionamento a dois (a três, quatro ou em quantos você quiser) funcione. “Se você for atrás de regras, vai deixar escapar a sua própria história”, diz Natália. A “pista” para um relacionamento saudável é estar aberto não só a acertos, mas também a erros e faltas (suas e do outro). “O verdadeiro laço se forma quando a gente consegue dividir até mesmo as nossas falhas”, pontua Ana Suy.

Navegar nesse mar exige certa dose de coragem, já que esse oceano pode ser altamente imprevisível. Comece entendendo que não há problema em esquecer de passar o protetor solar no rosto, não dar conta de fazer yoga todo dia, ou se frustrar profissionalmente. Isso faz parte de sua transformação. A partir daí permita-se sair da redoma da autossuficiência e experimente a vulnerabilidade do afeto. Amar também é sobre isso.

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