Seus Relacionamentos

O museu das relações partidas

Uma caixa de fósforo, um duende de jardim, um buquê, a história da separação: quando um coração despedaçado encontra alento em outros cacos

Ilustração: Elisa Pessôa
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4 minutos

É irônico que tenha sido através de um post dele, acessado por um perfil falso, que você tenha descoberto o Museu das Relações Partidas, em Zagreb, Croácia. Um museu ― você veio a conhecer os detalhes depois, quando pisou lá com seus próprios pés ― feito de objetos enviados por gente ao redor do mundo, objetos que simbolizassem o fim de seus relacionamentos, tenham eles durado o tempo que fosse, casamentos que sobreviveram a décadas, casos que duraram meses ou encontros de uma só noite, o importante era que tivessem sido marcantes o suficiente para produzirem aqueles símbolos da dor ou da superação ou de ambas ao mesmo tempo. Ao lado de coisas como uma caixa de fósforo, um duende de jardim, um buquê, a história da separação, ocorrida por morte, por consenso, por abandono, inúmeros jeitos de convergir, inúmeros jeitos de se apartar, e, nas tantas histórias, um abismo em comum, o abismo dentro do peito quando se ama.

+ Veja também: Quando um não quer, dois não transam

Um abismo que te intriga: afinal, o que acontece com seu corpo quando você se apaixona? Em que ele se transforma, pulsátil, sedento, voraz por um único ser no mundo? Que necessidade é essa que é fome, que instrumentos cavam o buraco em que você grita para ouvir de volta os ecos desse nome ausente, o único que você consegue ouvir, mas no fundo do qual, se você prestar bem a atenção, você escuta o seu próprio nome? Que urgência é essa que acende cada célula, como se fosse iminência de morte o instante em que você está mais viva, ainda que doa, ainda que seja só dor? Quem determina esse absurdo que se chama paixão, será a natureza? Será uma necessidade evolutiva que você se apaixone por ele, especificamente por ele, cabe num livro de ciências o gozo, o desespero, o abraço? Cabe num tratado de sociologia a sua voracidade, as mulheres por séculos precisando dos homens para se garantir socialmente e então esse resquício, precisar ter alguém? Ou seria da ordem do acaso, do mítico, do divino, ou de tudo isso junto?

“Contorcendo-nos com o sal de nossas próprias lágrimas”

A Croácia era perto do destino daquela viagem, mas o desvio de rota foi proposital. Era como se você ― ainda ― precisasse seguir os rastros dele, ou então, pelo contrário, aquele seria um jeito, talvez, de colocar você mesma um fim na história que não teve um fim, pelo menos não um fim anunciado. Porque ele simplesmente sumiu e até agora há algo seu em carne viva, mas que carne sua não é, de fato, viva? Seria a paixão ou essa dor algo capaz de nos reconduzir ao que somos, ao que sempre fomos, seres frágeis, moluscos sem casca, contorcendo-nos com o sal de nossas próprias lágrimas? Parece mesmo um molusco, a conjunção de lábios de sua vagina com a fenda de nossa origem concreta, e o prazer do clitóris talvez se assemelhe ao da ostra que morre contida inteira na boca de alguém, então fundida.

Ilustração: Elisa Pessôa

E no entanto.

No entanto você percorre sozinha os corredores pouco iluminados do museu, costurando com seus passos, com o tempo, o fim da história com ele, o seu próprio fim; ele, que já te abraçou com aquela força, que já esteve nos seus dias, no seu corpo, que estará para sempre, mesmo quando já não doer, na história da sua vida. Porque você é feita de remendos, os remendos dos seus sonhos, a concatenação das histórias que não deram certo e que são, e sempre serão, a sua. 

Você amassa o bilhete de ingresso para o museu com um pouco mais de força que o necessário e o atira no lixo. Ele fica ali, você continua sua viagem.

* Natalia Timerman é escritora, psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia e doutoranda em literatura pela Usp. É autora de Desterros – histórias de um hospital-prisão, Rachaduras, finalista do prêmio Jabuti, e do romance Copo Vazio.

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