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Fé também é autocuidado

A ciência prova que a fé não costuma falhar quando se fala em qualidade de vida, longevidade e menos risco de depressão. Fomos investigar que tipo de espiritualidade é capaz de trazer tantos benefícios para a saúde mental e física

Nosso Mundo / Reportagem Por:
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Nunca se falou tanto sobre autocuidado e saúde mental, sobre as infinitas práticas terapêuticas, hábitos, exercícios e tratamentos que estão se tornando cada vez mais acessíveis e prometem nos ajudar a encarar tempos tão brutos. Ainda assim, a sociedade moderna, movida pela razão e pela ciência, costuma deixar de fora uma aliada antiga do bem-estar, que nos acompanha desde os primórdios: a espiritualidade. 

“No final do século 19, começa a surgir uma ideia de oposição entre ciência e espiritualidade, como se a religião fosse apenas uma criação humana para satisfazer desejos e lidar com medos, um sinônimo de fragilidade emocional, de falta de intelectualidade”, explica o médico psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora. Segundo ele, o afastamento até então inédito entre fé e ciência, se deu por uma série de motivos como a profissionalização da ciência, a guinada de movimentos anticlericais e uma visão mais materialista da vida, ou seja, uma perspectiva de que não existe nada além de matéria e forças físicas regendo o universo. 

A sociedade moderna costuma deixar de fora uma aliada antiga do bem-estar: a espiritualidade 

Ainda assim, 84% das pessoas no mundo têm religiosidade e uma em cada seis declara manter alguma crença (em Deus ou num espírito universal, por exemplo) sem se vincular a uma religião específica, de acordo com o estudo The Global Religious Landscape. No Brasil, 92% das pessoas já tiveram experiências espirituais ou religiosas, de acordo com uma pesquisa recente do Nupes em parceria com a Universidade de São Paulo (Usp). “Estudos têm demonstrado que maiores níveis de envolvimento espiritual e religioso estão ligados a uma maior qualidade de vida, menos risco de depressão, tentativas de suicídio, abuso de álcool e outras drogas e aumento da longevidade”, diz ele. 

Uma das pesquisas mais emblemáticas sobre o assunto, segundo o psiquiatra, foi divulgada em 2020 pela Universidade de Harvard. O estudo acompanhou ao longo de 15 anos mais de 100 mil profissionais de saúde nos Estados Unidos, categoria afetada pelas chamadas “mortes por desespero”, que são causadas por suicídio e overdose de álcool e outras drogas. Frequentar um grupo religioso ao menos uma vez por semana representou uma redução de 68% de mortes por desespero entre mulheres e 33% entre homens, mesmo com as diferenças socioeconômicas e condições de saúde envolvidas. “A religiosidade é um fator capaz de proteger seis vezes mais contra esse tipo de morte, é um dado muito forte”, comenta Alexander.

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Depressão e bipolaridade

Há uma década, o psiquiatra Bruno Mosqueiro investiga as relações entre espiritualidade e saúde mental. Em sua pesquisa de mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele acompanhou pacientes internados com quadro grave de depressão: “Por conta do transtorno, muitos não estavam respondendo bem aos tratamentos médicos e com risco de suicídio. O intuito era entender se eles tinham alguma prática espiritual e se isso influenciava no tratamento”, diz Bruno, que também é membro da Associação Mundial de Psiquiatria. 

Os resultados surpreendem: pacientes que declaravam ter alguma religiosidade (cerca de 60%) apresentavam menos tentativas de suicídio, maior resiliência, qualidade de vida e neuroplasticidade do cérebro, ou seja, a habilidade da mente de se adaptar às diferentes situações. “Eles conseguiam enfrentar melhor os desafios e sofrimentos. Meditar ou fazer preces também ajudava a aumentar o bem-estar psicológico”, conta Bruno, acrescentando que a espiritualidade é benéfica para a saúde quando auxilia a pessoa a encontrar um sentido para a existência: “De diferentes modos, entendiam que a vida vale a pena e que não termina com a morte física”, explica.

“Meditar ou fazer preces também ajuda a aumentar o bem-estar psicológico”

Outra pesquisa feita pelo Nupes mostra que o envolvimento religioso diminui em quatro vezes a chance de episódios de depressão entre pessoas diagnosticadas com transtorno bipolar. “O indivíduo que faz um uso positivo da espiritualidade é aquele que enxerga a vida como um desafio, como algo que ele tem suporte para enfrentar. Por outro lado, o uso negativo envolve ser passivo, acreditar que Deus sozinho vai resolver os problemas, que Deus está apenas castigando”, conta Alexander, um dos pesquisadores envolvidos. 

É preciso reforçar que a espiritualidade é apenas uma das vias para ampliar o bem-estar, o que não substitui outros cuidados com a saúde. “As pessoas costumam colocar os problemas em caixinhas, acham que a depressão, por exemplo, é só uma questão do cérebro ou psicológica ou da vida espiritual. Somos seres bio-psico-sócio-espirituais, ou seja, temos todas essas dimensões interagindo ao mesmo tempo”, afirma Alexander.

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Espiritualidade na prática

Seja numa meditação, numa oração ou num encontro religioso, o barato da espiritualidade está em alimentar emoções positivas, ter momentos de pausa e de reconexão. “Quando falamos em bem-estar espiritual, falamos em uma felicidade baseada em propósito, em um significado. Existe o mito de que a felicidade está ligada somente às conquistas, as pessoas dizem ‘vou ser feliz quando for promovido, quando mudar de casa, quando eu tiver o casamento dos sonhos’. Claro que as conquistas geram um pico de prazer, mas isso não é permanente”, diz Renata Rivetti, especialista em psicologia positiva e diretora da Reconnect, consultoria voltada para a felicidade no mercado de trabalho. 

“Somos seres bio-psico-sócio-espirituais: temos todas essas dimensões interagindo ao mesmo tempo”

Segundo ela, a busca por um propósito não precisa envolver uma jornada megalomaníaca, um ano sabático ou um retiro espiritual nas montanhas, mas sim, encontrar sentido nas  mudanças do dia a dia, no pequeno impacto que geramos em nosso entorno. “É ter atos de gentileza, compaixão, escuta ativa. Pode parecer simples, mas é uma forma de trabalhar a espiritualidade na prática”, diz Renata. 

Para aprofundar:

  • Podcast Fé com Ciência, no Spotify. A cada episódio, a jornalista Regina Campos conversa com pesquisadores sobre saúde, espiritualidade e ciência. A produção é do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora
  • Série documental “A história de Deus’, no Netflix. Em seis episódios, o ator Morgan Freeman mergulha em experiências espirituais de diversos povos e lança reflexões profundas sobre Deus.

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