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Amor de mãe: a história que você não viu na tv

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A autora da novela de mais sucesso dos últimos tempos conta como nasceu a personagem Dona Lourdes e porque ser mãe é apenas uma das coisas que ela faz na vida

Fazia 42 graus no Rio de Janeiro. A minha barriga parecia de trigêmeos e eu já não sabia mais nem qual era o meu nome quando o médico me perguntou se eu queria marcar a cesariana. – Claro que eu quero! – demorei meio segundo para responder.

Aos 39 anos, depois de perder dois bebês, e ter feito uma cesariana, a última coisa que eu queria era ter a experiência de entrar em trabalho de parto e ficar presa num bloquinho de carnaval rumo ao hospital. Não. Naquela altura, bebê bom era bebê no braço.

“Eu era uma mamífera e me senti conectada com as baleias”

Ia nascer numa sexta feira. Ótimo! Dia de Oxalá. O parto de Helena foi de cesariana, mas o nascimento foi humanizado. Musiquinha na sala de parto. Quando o médico tirou minha filha de dentro da minha barriga, Gil estava cantando “Filhos de Gandhi”. Ela era gigante e linda, o mais importante: saudável. O pai cortou o cordão umbilical. Existia um épico acontecendo ali. Existiam os deuses todos ali. Que momento inesquecível. Vem tanta coisa na cabeça da gente, vem tudo! Aquele bebê, meu bebê. Eu consegui! Seguro Helena, que para de chorar, por instinto ela acha meu peito e mama ali mesmo, um pequeno show de ancestralidade. Meu peito começa a esquentar. Eu podia dar de mamar! Eu era uma mamífera e me senti conectada com as baleias. Tudo era mágico e eu sabia o que fazer para cuidar de minha filha.

Apenas porque aquele bebê existia, tudo mudou. O copo d’água, o mundo lá fora, o perigo do trânsito. Eu era diferente. A imensa crise de identidade que eu tinha previsto não aconteceu. Eu colocava Helena sobre minha cadeira e, numa postura totalmente contraindicada, escrevia no computador. Passei assim meu aniversário de 39 anos.

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Escrever com minha filha no colo era a melhor síntese de mim mesma. Para mim nunca houve um antagonismo entre o trabalho e a maternidade. Quando me perguntam como eu equilibro essas duas coisas, a resposta é simples: eu não equilibro! Acho que não existe essa coisa de “vida balanceada”. Certamente não serei a melhor mãe que existe em mim quando estou escrevendo uma novela das nove durante a pandemia… Mas essa é a mãe que minha filha tem. Uma mãe que trabalha, que tem vida própria e que nunca vai cobrar ela, mais na frente, sobre ter lhe dedicado “os melhores anos da minha vida”. É claro que, mesmo trabalhando sete dias por semana durante a novela, nunca deixei de botar minha filha para dormir e ler pra ela todas as noites. Mas nunca serei a mãe que busca todo dia no colégio ou vai a todas as aulas de natação. E tudo bem!

“É importante que estejamos sempre alertas para não abrirmos mão de nós mesmas”

Agora que Helena tem seis anos, posso administrar melhor alguns conceitos sobre ser mãe… Acho que naturalmente a mulher abre mão de muitas, muitas coisas para ser mãe. Sobretudo porque vivemos imersos em uma cultura estruturalmente machista que nos sobrecarrega com as tarefas da casa e no cuidado com os filhos. Contudo, acho importante que estejamos, nós mulheres e mães, sempre alertas para não abrirmos mão de nós mesmas.

Não é possível ocuparmos sempre o último lugar na fila dos afazeres. Isso não é saudável e nem é um bom exemplo para nossas filhas, nem filhos. Quando Helena me pergunta se eu trabalho para ganhar dinheiro, faço questão de explicar que, além do dinheiro que é muito importante porque nos viabiliza muitas coisas, eu trabalho porque amo o que faço. Namoro porque amo meu namorado. Faço coisas sem ela, como ela também tem vontade de fazer coisas sem mim. E mesmo assim, estarei sempre aqui para ela, porque sou sua mãe.

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Eu posso dizer sem culpa que amo minha filha, mais do que tudo no mundo, porém, ser mãe não me define. Não pretendo jogar o peso da minha identidade sobre os ombros de Helena. Até porque, seria sempre uma mentira interessada em alguma garantia para a velhice… Porque se existe alguma verdade, é que somos muitas coisas.

Demorou para eu voltar pras minhas roupas, pra minha libido… Entre uma mamada e um roteiro, às vezes eu pensava – gente, eu tinha libido… como era isso mesmo? Escuto maravilhada histórias incríveis de mulheres que têm tesão até no dia do parto, que gozam no parto, no pós-parto, amamentando… Para mim, a sexualidade se tornou um conceito abstrato por mais de um ano. E foi preciso descobrir o conhecimento milenar do Tantra para redescobrir onde que… enfim! Isso já é um outro assunto, para um outro texto.

“A maternidade tira nosso direito de morrer, e essa imortalidade é a base do nosso superpoder”

O fato é que a maternidade muda tudo em sua vida, sobretudo, porque ela lhe tira o direito de morrer. Agora eu tinha que ficar viva para garantir a vida daquela criaturinha. Eu tinha que me cuidar, comprar uma casa. Eu não podia mais morrer pelo menos pelos próximos… 20 anos? E essa imortalidade é, na minha opinião, a base do superpoder que só as mães têm. Esse superpoder se chama “amor de mãe”.

Foi sentir isso, junto com o extremo amor que me fez chorar por quase um ano ao olhar minha filha enquanto ela dormia que me veio a ideia de escrever a novela “Amor de Mãe”. Junto com Helena, junto com a mãe que eu havia me tornado, nasceu a Dona Lurdes! E o resto da história, você viu na tv!  

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