Cidades para mães são melhores para todos - Mina
 
Nosso Mundo / Reportagem

Cidades para mães são melhores para todos

Um planejamento que coloca as mulheres e as crianças no centro do debate promove o bem-estar de todos. Conheça dez iniciativas inspiradoras

Por: e
9 minutos |

Diz aí quem nunca passou por uma situação de total desespero e constrangimento para trocar uma fralda no meio da rua. E atravessar aquela catraca do coletivo com criança no colo? Quantas vezes você já desistiu de sair de casa com os pequenos por falta de opção ou por que o orçamento não alcança os espaços de brincar, caros e distantes? Já se perguntou quanto tempo sobraria se as consultas pediátricas pudessem ser agendadas em um aplicativo? E se o condomínio que mora tivesse sido projetado contando com sua opinião e todo planejado para facilitar os cuidados? Parece utopia, mas não é.

Apesar da maioria das cidades seguirem falhando nisso, há bons exemplos de como um planejamento sensível a gênero, aquele que coloca as mulheres e as crianças no centro do debate, trabalha para promover o bem-estar das mães nesses espaços.

Cidades cuidadoras, onde as mães são acolhidas, geram impactos positivos no bem-estar de todos

A lógica da economia do cuidado vem norteando algumas políticas públicas, gerando ambientes, serviços e infraestruturas mais favoráveis para o cuidado e  desenvolvimento das crianças – propondo, inclusive, uma maior implicação do Estado nesse papel sempre tão delegado exclusivamente às mães. Aliadas às estratégias de defesa da primeira infância (0 a 6 anos) iniciativas têm projetado um movimento interessante em diversas localidades. Cidades cuidadoras, onde as mães são acolhidas, geram impactos positivos no bem-estar e saúde de toda a população.

Conheça dez políticas públicas no Brasil e no exterior que têm beneficiado quem cuida de crianças nas cidades:

1) Sistema de compartilhamento de bicicletas inclusivo

Bogotá, Colômbia

Já pensou como seria lindo usar uma bicicleta compartilhada para dar um rolê ou para ir ao mercado, ao médico ou à feira levando seu filho? Se pelo menos alguma das bicicletas disponíveis no sistema fosse adaptada para ciclistas com crianças e/ou bebês. A municipalidade de Bogotá, sob a gestão da prefeita Cláudia López passará a oferecer, além dos modelos elétricos, um serviço de aluguel de bicicletas equipadas com cadeirinhas para crianças. A prefeitura promete, até setembro desse ano, uma frota total composta por 3.300 bicicletas e 300 estações de locação. É uma atitude simples e inovadora para melhorar a vida das mães. Estamos torcendo para funcionar bem e virar moda em outros lugares.

2) Lavanderias comunitárias

João Pessoa, Brasil

A imagem de um cesto de roupas sujas é de causar arrepio na maioria das mães. Agora, imagine sem energia e água em casa e muito menos máquina de lavar. A cidade de João Pessoa, na Paraíba, tenta equacionar o problema com o projeto de lavanderias comunitárias, parte da estratégia para impulsionar a economia solidária na região. Hoje, existem duas em funcionamento diário, com máquinas, tanques de lavar, varais e espaços para passar. Já são mais de cem mulheres atendidas. Muitas delas, além de usarem as lavanderias para facilitar os cuidados domésticos, tiram seu sustento da atividade de lavadeira, sobretudo aquelas que lavavam as roupas nos rios nas proximidades. O projeto tem gerado engajamento comunitário e dinamismo na vida de muita gente.

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3) Mães podem circular gratuitamente com o “Cartão das mães”

Istambul, Turquia

Transitar pela cidade sem pagar pelo deslocamento é o sonho da grande maioria das pessoas. Na cidade de Istambul, desde o ano passado, isso é uma realidade para as mães com filhos de até quatro anos. O chamado “Cartão das Mães” oferece gratuidade no transporte público municipal. Segundo os dados apresentados por Ilhan Akbulut, Diretor do Departamento de Transporte Público de Istambul, “ [a iniciativa] diminuiu os gastos das famílias com transporte, encorajou as mães a participarem mais ativamente na vida social da cidade e ainda promove e estimula o uso do transporte público, reduzindo a utilização de veículos privados e, por consequência, as emissões de carbono”. O programa beneficiou 302.605 mil mulheres, que juntas realizaram quase 50 milhões de viagens, segundo os dados municipais. Em pesquisa com as usuárias, o índice de satisfação chegou a 98,78%.

4) O Conselho de cidade feminista e a ativação de espaços públicos

Santiago, Chile

A prefeita de Santiago do Chile, Iraci Hassler, vem operando uma série de transformações no modo de fazer política e pensar a cidade sob a perspectiva de gênero. Com o slogan “Vivamos bem Santiago”, as campanhas de ativação do espaço público vêm tomando força na gestão. Os chamados “Cabildos Feministas” (Conselhos) são reuniões abertas que acontecem a céu aberto, e têm como objetivo construir soluções coletivas para problemas como a violência, exclusão das mulheres na vida pública e o assédio. Oficinas de esportes, cursos de informática, aulas sobre direitos reprodutivos e sexuais, palestras e eventos culturais para a família são algumas das atividades que vêm agitando a capital chilena.

5) A aposentadoria das mães e o projeto “Cuidar em Igualdade”

Argentina

E por falar em práticas feministas e América do Sul, um projeto nacional da nossa hermana Argentina é o sonho de todas as mamães. Trata-se da “Aposentadoria das mães”. Como parte de um projeto maior de promoção de políticas de reconhecimento da desigual distribuição do trabalho de cuidados entre homens e mulheres, o programa do sistema previdenciário argentino possibilita que as mães se aposentem declarando o cuidado materno como profissão. Foi incluído um ano de contribuição para cada filho biológico, dois anos para os filhos adotivos e três anos para os com algum tipo de deficiência. Não é uma política para as cidades propriamente dita, mas como o dinheiro é fundamental para a autonomia das mães, ela merece destaque.

6) “A capital mundial das políticas de tempo” e os investimentos para melhor dividir a carga dos cuidados

Barcelona, Espanha

Uma série de programas comunitários nos bairros e de democratização dos cuidados levaram a cidade, que tem até um Banco de Tempo, a ganhar o título de “World Capital of Time Policies“. Em Barcelona, sob a liderança da prefeita Ada Colau, as decisões são tomadas com base em evidências e participação popular, com propostas elaboradas sob a perspectiva de gênero. Entre 2020 e 2021, cerca de 50 hectares foram subtraídos do espaço dos automóveis e recuperados para o caminhar, para os encontros e para o lazer, formando as chamadas super quadras. Não são espaços comerciais nem produtivos, são espaços destinados à vida cotidiana, para a vivência comunitária e para que as crianças possam brincar. 

7) Reserva de assento para lactantes nos ônibus

Rio de Janeiro, Brasil

Na cidade do Rio de Janeiro, Thais Ferreira, a vereadora que intitula seu mandato como “MãeData”, acaba de aprovar um projeto de lei, já publicado e valendo, que incorpora as lactantes como categoria preferencial no transporte público municipal. “A gente sabe que o trabalho de nutrir uma outra vida é grande e precisa ser assistido por toda a sociedade. O projeto é sobre dar oportunidade de descanso para as mulheres, de justiça reprodutiva e de economia do nosso cuidado”, afirma a vereadora. Segundo a lei, as empresas de ônibus são obrigadas a afixar, junto às placas de assento preferencial, um laço dourado, símbolo da importância do aleitamento humano, seguido de breve descrição de que ele se refere às pessoas lactantes. Para utilizar os assentos, basta que a mulher o solicite.  

8) Tecnologia parceira das mães

Tel Aviv, Israel

A parceria da prefeitura da capital de Israel com o programa Urban95, da fundação holandesa Bernard Van Leer, conseguiu transformar a paisagem local, devolver a rua para as pessoas, estruturar uma rede de playgrounds que acolhem crianças,  e criar uma série de facilidades para as mães israelenses. Uma delas foi o Digitaf um sistema digitalizado que permite aos cidadãos se conectarem com os serviços ofertados pelo município, neste caso, focados em crianças pequenas. Serve para a marcação de consultas em clínicas pediátricas, acesso a informações dos centros de cuidado infantil e até permite que se agende eventos culturais públicos infantis, como contações de histórias. Além disso, oferece descontos para produtos, serviços e atividades. Uma mão na roda para as mães conectadas.

9) Abrigos de ônibus modernos, educativos, confortáveis e seguros

Boa Vista, Brasil

Andar de ônibus com crianças, todas as mães sabem, pode ser um verdadeiro desafio. Pensando nisso, Boa Vista, a capital de Roraima que é referência em políticas para a primeira infância, reformulou os pontos de ônibus para que se tornassem confortáveis, iluminados, visíveis, acessíveis e seguros para as mães e seus filhos. Com estruturas modernas, boa parte deles, inclusive, climatizados com ar condicionado alimentado por energia solar, possuem módulos interativos, pinturas alegres, jogos, livros e assentos, o que os torna atrativos e seguros para as crianças e facilita o deslocamento das mães.

10)  Pioneirismo na criação de uma cidade sensível a gênero

Viena, Áustria

Viena foi a primeira cidade no mundo a criar um planejamento urbano sensível a gênero e que, por mais de duas décadas, vem se aperfeiçoando. Em 1997, foi construído o primeiro projeto de habitação voltado às necessidades das mulheres e com foco na economia dos cuidados, o Frauen-Werk-Stadt. Hoje já são três, construídos pelo Departamento de Gênero da cidade. Os objetivos do projeto foram apoiar o trabalho de cuidados, melhorar relações de vizinhança, promover segurança e respeitar os diferentes tipos de famílias e as diferentes fases da vida. O projeto conta com espaço de jogos e brincadeiras, bicicletários infantis e adultos, lavanderias e jardins. Nos apartamentos, a construção da cozinha é um local iluminado e espaçoso, com vistas ao pátio e ao lugar onde as crianças brincam. E o que talvez seja um dos segredos de sucesso é que a elaboração do projeto foi toda acompanhada e gerenciada por suas futuras moradoras.

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