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Você sabe o que é nutricídio?

O termo foi criado em 1990, mas volta à tona no Brasil em 2022, num cenário de fome e de uma alimentação que não nutre

Nosso Mundo / Reportagem Por:
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O aumento do desemprego durante a pandemia refletiu diretamente na alimentação dos brasileiros. Comidas que antes faziam parte da nossa rotina, hoje saíram do cardápio devido ao nutricídio que ocupa o vazio do prato na mesa. Termo cunhado pelo estudioso Llaila O. Áfrika na década de 1990, o nutricídio (também chamado de genocídio alimentar) se dá na impossibilidade de acesso a alimentos com alto valor nutricional. Isso é reflexo de diversos fatores culturais, econômicos e sociais. Se afastar de hábitos alimentares tradicionais, o alto preço dos alimentos in natura e o bombardeio da indústria com falsas promessas são alguns dos elementos que colaboram para essa morte alimentar. 

Para a nutricionista Gabriela Vilasboas, especialista em saúde pública e comportamento alimentar, que atua na Bahia, é preciso deixar claro que o nutricídio tem cor:  “trata-se da insegurança alimentar a que está submetida a população negra dentro e fora da África”,  explica. 

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E porque não chamar apenas de fome e sim de nutricídio? Esse é um ponto interessante, porque a fome é popularmente conhecida como falta de alimento, prato vazio e ponto. O nutricídio pode ser a fome de quem se  alimenta, já que versa sobre falta de nutrientes e não de comida em si. E essa é uma característica muito contemporânea, que surgiu junto com os alimentos ultraprocessados, cheios de aditivos e que não  são nem considerados alimentos de verdade por muitos especialistas. Alguns fazem questão de chamar de produtos alimentícios, justamente para diferenciar uma coisa da outra. Entre os exemplos estão os biscoitos recheados, salgadinhos “de pacote”, refrigerantes, produtos desidratados – como misturas para bolo e sopas em pó – macarrão instantâneo, molhos prontos, bebidas energéticas, entre outros (quer saber todos? A lista completa está no Guia Alimentar para a População Brasileira). 

Claro que não estamos falando de comer um miojo no final de semana ou atacar um salgadinho durante uma viagem. O que acontece no Brasil hoje é a substituição do arroz, feijão, legumes, salada e afins por esse tipo de produto. Algo que mata a fome, mas não alimenta e se não alimenta, não serve. 

Grande parte da população só consome comidas ultraprocessadas

E aqui é preciso pontuar que a culpa não é das pessoas que estão fazendo essa substituição, mas sim de toda uma cultura e uma indústria que impulsiona o consumo desses produtos usando mecanismos enganosos que remetem até a memórias afetivas para conquistar clientes. “Usa-se muito o chamado ‘cheirinho da vovó’, que leva o consumidor ao engano de achar que se trata de um alimento de boa qualidade”, revela a nutricionista Célia Patriarca, docente e pesquisadora dos projetos CulinAfro e Abayomi da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFJR). 

Na atual situação do Brasil, uma família preta composta por uma mãe solo e duas filhas, moradoras do Norte ou Nordeste do país, com baixa escolaridade e em situação de vulnerabilidade social é o perfil de quem vive em estado mais severo desse problema, aponta o Relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN). Com a pandemia, outros brasileiros de diferentes regiões e com composições distintas de família também foram empurrados para  o nutricídio. De uma população de 211,7 milhões de pessoas, 116,8 milhões conviveram com algum grau de insegurança alimentar em 2020, aponta o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil

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A insegurança alimentar é categorizada em três níveis: leve, quando há queda na qualidade dos alimentos consumidos e preocupação com refeições futuras; moderada, quando a quantidade de alimentos consumidos cai, surgindo a necessidade de pular refeições; e grave, quando há escassez de alimentos para todos os membros da família, chegando até mesmo à condição de fome.

Esse problema também tem território: nas regiões periféricas e afastadas dos grandes centros urbanos, se formam o que hoje os especialistas chamam de desertos alimentares. É onde a população pobre se encontra. E o que há em abundância ali?  “Os ultraprocessados baratos e produzidos em larga escala. Praticamente não há acesso a verduras e legumes”, conta Célia. 

Com uma alimentação baseada no que se pode comprar e não na qualidade do produto, surgem os problemas de saúde 

Um exemplo disto é a disparada de vendas do macarrão instantâneo em 2020. Foi tão forte que puxou o faturamento de todo o setor de massas, resultando em 3,1 bilhões de reais e 189 mil toneladas vendidas, segundo a Associação Mundial de Macarrão Instantâneo. O resultado superou o de 2019, quando esse ganho foi de 2,6 bilhões de reais e o consumo de 168 mil toneladas.  

E a morte sugerida no sufixo cídio? Quando a alimentação é baseada no que se pode comprar e não na qualidade do produto, surgem questões de saúde grave, como doenças crônicas e cardiovasculares, além de cânceres e diabetes. “A obesidade (que leva a muitas dessas doenças) é uma das faces do problema, já que as pessoas não conseguem os nutrientes que precisam nesses produtos cheios de aditivos”, explica a pesquisadora da UFRJ.

E qual o caminho para fugir disso? 

É garantia básica do ser humano ter uma alimentação saudável. Como falou a empresária Luiza Helena Trajano em entrevista à MINA: “Bem-estar, hoje, para a maioria dos brasileiros é ter comida na mesa”. E é preciso martelar isso quantas vezes for necessário. Com a grana curta e a dificuldade de acesso a alimentos de qualidade, fica realmente complicado comer melhor. Mas há alguns caminhos que podem ajudar a driblar a falta de nutrientes. 

O principal é tentar cozinhar mais em casa. Não tem tempo ao longo da semana? Separe algumas horas do seu domingo para caprichar no preparo dos alimentos e depois congele em potes separados para ir consumindo aos poucos. É um hábito que precisa ser praticado até entrar de vez na rotina, mas vale a pena.

“Prefira frutas, verduras e legumes que sejam da estação, eles são os mais cultivados naquele momento e, por isso, os mais baratos”, sugere a nutricionista Mariana Ribeiro. Assim você garante uma alimentação mais rica em nutrientes, gastando menos. “Outra dica é montar um uma lista de compras bem planejada para evitar exageros e desperdícios.” Pesquise preços e quais são as ofertas do dia antes de ir às compras e, chegando lá, foque no seu planejamento.

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Outra forma de economizar é aproveitando os alimentos integralmente. “Reaproveite as cascas, os talos, as sementes, como as de abóbora”, indica Gabriela. Tem várias receitinhas na internet ensinando a fazer isso – de bolos com bagaço de milho a geleia de casca de banana ou casca de abacaxi – só dar o Google.

Claro que o nutricídio não se resolve individualmente. É preciso de ações coletivas e incentivo do governo para que esse reverter esse quadro. “Precisamos resgatar as alimentação originárias dos povos nativos e ter políticas que fortaleçam a alimentação das comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas. Precisamos também fortalecer a agricultura familiar por meio de políticas públicas”, defende Célia. Porque nutrição é muito mais que comer e fome não é só prato vazio. 

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