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Ter a beleza de milhões e o corpo de verão é pra todo mundo 

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No país dos procedimentos estéticos, Angélica recebe a apresentadora e empresária Bielo Pereira para falar sobre beleza e autoestima

O assunto de hoje é sobre belezas, no plural mesmo. Você se acha bonita? Porque parece que só existe um tipo de beleza, um padrão bem específico, que até que se encaixa nele, como a nossa colunista Angélica, também se sente desconfortável às vezes. 

A sensação é de que tem sempre alguma coisa faltando ou sobrando, quilinhos demais, peitos de menos, dobrinhas demais, curvas de menos – e assim o Brasil vai batendo recordes mundiais de procedimentos estéticos. Nessa lógica sem lógica nenhuma, magro vira elogio e gordo vira palavrão. 

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A convidada da Angélica desta semana é a apresentadora e empresária Bielo Pereira, que tem ajudado ampliar a ideia de beleza, combatendo a gordofobia com doses generosas de autoestima e alegria. O bom humor é uma das ferramentas utilizadas para reduzir as resistências. “Se a gente não traz uma leveza, a galera já se fecha para o assunto”, diz. 

E para quem ainda está no cercadinho de homem e mulher, pode dar um curto-circuito ao tentar entender o que é bi-genare – que é como Bielo se identifica. “Eu sou uma pessoa trans, não binária, bi-genere, ou seja, sou homem e mulher ao mesmo tempo, independente da imagem social que esteja apresentando naquele momento.”

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A empresária comenta que ser trans, preta e gorda, em um país como o nosso, é muito pesado, mas que a questão do peso, em especial, é tratada como patologia em qualquer âmbito. “Somos um país tropical e todo mundo quer ter o corpo do verão o tempo todo”, diz. Bielo, no entanto, ressalta que o corpo de verão é o que temos, seja ele como for, e que há uma dificuldade das pessoas entenderem essa dinâmica. 

Quanto à autoestima, ela diz que se sente fora da curva, porque sempre se achou incrível, independentemente do que falavam.  “Gostava de ser líder dos grupinhos que eu estava.” Noveleira, ela se sentia protagonista quando assistia as tramas das 20h. 

Estou no sistema para hackear ele. É um trabalho superimportante

Dentro de casa, as dietas imagináveis eram oferecidas desde criança para Bielo, mas nunca houve uma relação negativa entre beleza e ser gorda, e que ao contar aos pais sobre sua identificação de gênero, recebeu acolhimento.  “A minha transição foi logo após o falecimento do meu pai, conversei com minha mãe e contei que sou uma pessoa trans e não-binária e ouvi dela que sempre seria o filho dela.” 

Agora, adentrando as redes sociais, nos deparamos com vários filtros que afinam o rosto, uniformizam a pele, emagrecem, embranquecem e trabalhar nesse espaço contra esse padrão não é tarefa fácil. “Estou no sistema para hackear ele. É um trabalho superimportante. Tem a questão de alguns filtros que são racistas e o algoritmo que é gordofóbico, mas o mais gratificante são as respostas que eu recebo”, comenta ao falar do seu trabalho no Instagram. 

Nesse jornada, o sonho que Bielo ainda quer realizar é se firmar como apresentadora. “Fiz um programa para o GNT, no ano passado, que me deu esse título. Fiquei muito feliz porque era sobre notícias boas, bem no começo da pandemia.” Ela também quer ser cada vez mais uma representação para a comunidade gorda, preta e LGBTQIA+. “Quero mostrar que você pode interseccionar tudo isso e chegar aonde você quer, sim”, finaliza. 

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