Seu Corpo

Sua vulva não precisa de skincare

Em ascensão no Brasil, o mercado de sexual wellness, ou, em bom português, bem-estar sexual, começa a virar mais uma pressão estética para as mulheres. A conquista do prazer precisa ser celebrada, mas será que precisa de tanto creminho?

Seu Corpo / Reportagem Por:
5 minutos

Rosinha. Sem pelos. Lábios internos pequenos. Lábios externos, grandes. Cheirosa e hidratada. É assim que o pornô tradicional descreveria a “pepeca dos sonhos”. No Brasil, a cultura da vulva perfeita é tão forte que somos os líderes no ranking mundial de cirurgias plásticas na região íntima, a ninfoplastiva. Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, são 21 mil procedimentos ano. Atrás da gente, os Estados Unidos contabilizam a metade no número de operações.

Nós criamos – e exportamos – até mesmo nossa própria depilação para a área íntima, a “brazilian wax”, procedimento que remove todos os pelos do local e deixa a vagina e o anus lisinhos. “Existe um ideal de beleza vulvar que muitas mulheres tentam alcançar. Hoje em dia o mercado da estética oferece preenchimento, ninfoplastia, botox… Vários procedimentos para deixar a vulva impecável”, comenta a ginecologista e obstetra Mariana Rosário. “Sinto essa busca pela perfeição nas minhas próprias pacientes. É algo cultural, muito difícil de romper”. A saga em busca da pepeca perfeita, portanto, não é nova, mas recentemente ganhou um novo capítulo.

 “Para ter prazer a mulher não precisa de nada que não seja o próprio corpo”

Durante a pandemia, repensamos a maneira como lidamos com o nosso corpo. O jeito como nós, mulheres, encaramos o prazer também foi redefinido. Surfando nessa tendência, um novo nicho de mercado surgiu: o do sexual wellness. Se no começo do isolamento social, autocuidado era sinônimo de rotinas de skincare e rituais com a pele do rosto, com mais tempo trancadas em casa, esse olhar chegou também na região íntima.

Para Mariana Stock, sexóloga e criadora do projeto Prazerela, nesse período, avançamos, sim, na discussão da liberdade sexual feminina. “Evoluímos na pauta do prazer feminino e pudemos mostrar que somos seres humanos que também sentem, e não apenas executam”. Contudo, ela avalia que o mercado se apropriou da pauta para criar demandas – e pressões – desnecessárias. “Atrelaram o autocuidado sexual ao consumo, sendo que, para ter prazer, a mulher não precisa de nada que não seja o próprio corpo”. 

Creme com ácido hialurônico para aumentar a elasticidade da pele da vulva. Óleo de coco para amenizar os pelos encravados ao redor dos grandes lábios. Lubrificante disso, óleo daquilo. Produto com fragrância exclusiva… O que não faltam são novidades.

Pelo prazer, sim. Pela cobrança, não

A ginecologista natural Débora Rosa concorda com Mariana. “A gente já é cheia de nóia na hora do sexo. Será que estou cheirosa? A depilação está boa? Esses vários produtos podem criar ainda mais obstáculos para a gente se satisfazer”, constata. Para ela, é como se mais uma vez estivéssemos reforçando a ligação entre prazer e padrão de beleza vulvar. “Não existe creme para o saco escrotal do homem. Por que ligam tanto para a nossa pepeca mas não existe nenhum produto de pintocare? Tem um monte de pênis torto por aí e o mercado de beleza não liga para eles”, provoca.

+ Leia também: 6 benefícios da masturbação
+ Leia também: A importância do tesão

Por outro lado, é preciso ressaltar que o mercado do sexual wellness ajudou a ‘normalizar’ o consumo e a venda de produtos que, até então, eram vistos com receio e preconceito por grande parte do público feminino. Os vibradores, que até pouco tempo eram um enorme tabu, ganharam respeito, novos modelos e as redes sociais. De 2019 para 2020 o volume de vendas duplicou. Não é à toa que esse segmento movimentou cerca de R$ 2 bilhões em 2020, segundo levantamento da Abeme (Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual). “Se fosse somente do ponto de vista erótico, teríamos apenas motivos positivos para comemorar o crescimento do mercado do sexual wellness”, diz a médica. “Mas não é bem assim que funciona”.

“O sexual wellness não nasceu com o intuito de criar mais uma pressão, mas tornou-se”

Além da discussão política ao redor do tema, especialistas recomendam cuidado na hora de adquirir produtos para a região íntima. “A maioria desses cremes contém substâncias irritativas para a saúde íntima, como petrolato (um derivado de petróleo). Isso pode causar desde lesão até alteração no PH”, sinaliza Débora.

A psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e referência em pesquisas sobre sexualidade, também faz ressalvas quanto ao uso indiscriminado desses produtos. “É importante que a mulher não saia usando qualquer coisa na vagina antes de falar com o seu ginecologista”. Se o problema é falta de lubrificação, por exemplo, pode ser sintoma de uma endometriose, de problemas hormonais, de algo mais grave ou, até mesmo, alguma questão psicológica, pondera Carmita, que orienta checar o registro do produto na Anvisa antes de efetuar a compra.

“O segmento do sexual wellness não nasceu com o intuito de criar mais uma pressão contra o público feminino, mas tornou-se. Nós, mulheres, sofremos cobranças estéticas diariamente, e o último lugar onde faltava chegar era a intimidade”, reflete Mari Stock. Para ela, não ceder a essa pressão requer um investimento libidinal – ou seja, com desejo – de ir contra o sistema. “Autocuidado é se aproximar de si. Cada vez estar mais aliada a nós mesmas. Ouvir, de fato, o que queremos e sentimos. Para sentir prazer, a gente não precisa de nada, a não ser da gente inteira”, finaliza. 

Veja também