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Nosso maior tabu: o dinheiro

Um assunto que deveria ser tão natural, mas que é fonte de ansiedade, constrangimento e medo, a ponto de ser evitado a todo custo. Afinal, por que falar de dinheiro é tão complicado?

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Quer assustar alguém? Pergunte na lata quanto ela ganha ou qual é o seu custo de vida. A resposta não virá fácil, pode apostar. Possivelmente, a pessoa vai fazer cara de espanto e perguntar: “por que você quer saber?”. Como se fosse uma revelação obscena. Como se estivéssemos perguntando a posição em que ela prefere transar. Que o sexo é assuntos íntimo, todos sabemos – e mesmo insistindo para que não seja um assunto tão espinhoso, concordamos que é tabu. Já o dinheiro, que passa de mão em mão e, na teoria, não incomoda nem os mais pudicos, engana todo mundo, deixando o sexo no chinelo no quesito papas na língua. Tá se perguntando se essa afirmação não é exagerada? Então pense: você sabe quanto seus amigos ganham? Sabe qual é o custo de vida mensal de suas comadres? Acredite: tem gente que não sabe nem os honorários do cônjuge. Sim, vamos falar desse tabu.

Um estudo realizado pelo banco BV, em parceria com o Instituto Mindminers, em 2021, confirma: mais da metade da população brasileira enxerga o assunto com muitas ressalvas. As primeiras palavras que vêm à cabeça de 61% dos entrevistados quando indagados sobre como se sentem em relação a dinheiro são: preocupação, insatisfação e insegurança. 

Para mais da metade da população brasileira, dinheiro é um assunto incômodo

Para o consultor, educador financeiro e autor do livro Dinheiro Sem Medo, Eduardo Amuri, a raiz do tabu é múltipla. Mas dá pra gente destacar uma: “O dinheiro é a nossa grande métrica de sucesso hoje. Medimos se uma pessoa deu certo na vida quando ela tem muito dinheiro. É normal que esse assunto ganhe muita densidade, se torne complexo. E a gente costuma fugir da complexidade – o que é uma tragédia.” Afinal, quanto menos a gente fala sobre um assunto, mais a gente se distancia dele, ao invés de alimentar a conversa e aprender. 

Esse medo todo também pode ter origem na história do nosso país. Segundo Natalia Rodrigues (a @nathfinancas), empresária e educadora financeira focada no público de baixa renda, nosso passado foi muito difícil. Não faz muito tempo que vivemos uma fase de hiperinflação, confisco de poupança e também uma mudança de moeda. “Isso causa um trauma, uma insegurança”, afirma. E essa insegurança segue muito presente na maioria dos lares brasileiros. Hoje, mais de 70% das famílias do país estão endividadas, segundo um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.

A importância de quebrar esse tabu

O tabu não acontece só no plano individual. Há uma cultura sistêmica para manter o tema velado. “As empresas privadas não falam sobre planos de cargos e salários abertamente, só empresas públicas. Não existe transparência na cultura da grande maioria delas porque se falar, vai ter comparação e vai ter gente revoltada que o seu salário não é digno”, aponta Natalia. O questionamento também se daria com respeito às desigualdades de gênero. “Sabemos que muitas mulheres não ganham a mesma coisa que os homens, então eu vejo que tem algo de intencional aí. Imagina a revolução se todo mundo soubesse os salários uns dos outros? Olha o quanto de polêmica que estaria aí no mundo!”

“Imagina a revolução se todo mundo soubesse os salários uns dos outros?”  

Ou seja, é importante falar sobre grana, sim, não só para benefício próprio, como também para investigar e expor injustiças. Segundo Amuri, falar sobre dinheiro é tomar consciência. “A partir de uma população muito mais consciente, fica muito mais fácil da gente poder realizar as mudanças que a gente deseja”, complementa o consultor. “É algo que perpassa tantas as áreas da nossa vida, mas a gente segue achando que é assunto daquele economista, ou da pessoa que aparece no jornal engravatada”. 

A popularização da educação financeira tem ajudado no processo de quebra de tabu. Para Natalia, jovens estão buscando mudar essa realidade que acaba vinculando dinheiro a algo ruim, que causa brigas e intriga de família. “A educação financeira não é só sobre a parte técnica, é sobre anotar gastos. É sobre algo que mexe com a gente, viabiliza sonhos, sobre entender o mundo, a economia”, destaca. Não é preciso chegar no endividamento para aprender. “Temos que buscar a melhor maneira de falar sobre isso em casa.”

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A maneira como gastamos dinheiro também é uma forma de a gente endossar o que a gente quer que continue existindo ou não. Amuri frisa que, claro, existem pessoas que consomem o que dá para consumir, porque é a única maneira que elas podem se vestir ou se alimentar. O poder de escolha não é para todo mundo. “Mas sempre que existir a possibilidade, sempre que houver esse privilégio, sem dúvida que o consumo se torna algo extremamente político”, afirma.

Como, onde ou quando falar de dinheiro

E como faz, então, para quebrar esse silêncio e começar a conversa? Geralmente, a estratégia de falar de si não falha, mas sem essa de dar palestrinha ou querer mostrar que sabe mais, aí ninguém avança. A dica é do Amuri: “Se eu abro uma questão ou uma vulnerabilidade minha num papo, fica muito mais fácil das outras pessoas se conectarem com o assunto. Elas vão falar dos problemas delas e a conversa vai sair do lugar.” 

Existem alguns desafios, especialmente se você estiver em um grupo com diferenças sociais acentuadas. E se ganhar mais dinheiro do que os outros pode gerar culpa, Natalia atenta para o fato de que quem saiu de uma realidade de escassez tem ainda mais medo de falar sobre o assunto. 

O melhor mesmo é ir experimentando aos poucos. Que tal iniciar trocando ideia com seus colegas de profissão? Depois, dá para expandir horizontes. “Eu sugiro experimentar em muitas relações, com muitos tons diferentes, basta que alguém dê o primeiro passo de maneira franca, honesta e pé no chão, que as pessoas ao redor acompanham”, sugere Amuri. “Como se saísse um peso dos nossos ombros e a gente falasse ‘ah, então quer dizer que eu posso falar sobre isso também’.”

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