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Envelhecer é nossa melhor opção

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E isso não tem nada a ver com colágeno ou rugas, tendo em vista que na outra ponta há a morte. É por isso, não podemos perder nenhum segundo e precisamos estar abertos ao inesperado

Quando eu tinha 16 anos e estava em Salvador de férias, minha família cismou de me arrastar para um casamento de uma tia distante, que aconteceria em uma espécie de sítio, a uma hora e meia de carro da cidade. Era um evento que, claro, duraria o dia inteiro e isso me desesperava. Por outro lado, eu tinha que ir e ficar até a cerimônia que aconteceria por volta de meio-dia. Ok.

Fui coagida a aceitar, mas decidi que não ficaria até o final, depois da cerimônia eu iria embora. O recado foi dado. Mas minha família conhecia o lugar. Estradinha de terra, a meia hora de carro da estrada principal. Eles sabiam que eu não teria como ir embora sozinha.

A juventude não é boa porque temos colágeno. É boa porque temos tempo! 

Chegamos no casamento e, já no trajeto, fui realizando a imensa roubada. Mas fiquei na minha… Cumpri todas as marcas de sobrinha distante durante o evento, esperei a cerimônia e, quando acabou, avisei a meu avô que seguiria meu plano. Estou indo embora. Meu avô me explicou que todos ficariam e que eu não teria como ir embora. Não tem problema, eu vou andando. Lembro até hoje da cara abismada dele. Peguei minha mochilinha, botei nas costas e saí andando rumo à porteira de madeira. Antes de sumir na curva da estradinha, ainda olhei para trás e é impossível não dar uma risadinha, até hoje, quando lembro da expressão chocada deles.

Abri o portão e andei por uma hora ou mais até a estrada principal até pegar um ônibus. Para mim, essa história é o oposto da velhice.  

Eu tenho 45 anos. Ainda não dá para dizer que sou uma velha. Ao mesmo tempo, a juventude já ficou para trás há tantos anos que é fácil ver os efeitos colaterais do Tempo. Pé-de-galinha, bigode chinês, cabelo branco, cabelo ressecado de tinta, uma gordurinha ali, outra aqui, o pescoço que não sei o quê, a pálpebra que não sei o que lá… e o regime de uma semaninha, para dar aquela secada, já não surte efeito algum.

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Envelhecer não é fácil nem rápido. E como podemos resistir? Puxa? Estica? Injeta? Harmoniza? Primeiro os fios de colágenos ou lifting? Bota peito ou fica estranho? Eu sou bem medrosa, mas acho que cada um tem que fazer o que quiser e puder pagar. Tem gente que acerta muito, tem gente que erra feio. De qualquer modo, é bom ficar atento ao fato que nenhum procedimento estético vai resolver nosso vazio essencial (e necessário) e muito menos parar o Tempo.

É fácil achar que a estampa do Tempo nos propõe um problema estético. Mas não é isso. O real problema é o recado embutido nas rugas: o tempo está passando e no final dessa linha está a morte. Esse é o problema.

A juventude não é boa porque temos colágeno. A juventude é boa porque temos tempo! Não aproveitei um minuto da minha juventude admirando minha pele no espelho…  É claro que eu aceitaria de bom grado algumas doses extras de colágeno, mas quando penso no Tempo não é disso que eu mais sinto falta.

Com 20 anos, se eu chegasse numa praia onde se aluga cavalos, apenas cavalgava pela areia perto das ondas. Quem nunca sentiu essa sensação, indico. Hoje em dia, eu faria uma entrevista com o cara, ia querer saber do cavalo, perguntar se tem hospital perto, se alguém já caiu, como foi… e provavelmente acabaria desistindo. Afinal de contas, não dá para quebrar um braço a essa altura do campeonato! Eu saía de casa achando que ia para um lugar e acabava em outro. Fazia uma mala de viagem e saía em 15 minutos. Se a festa estava chata, eu apenas ia embora. Se não tinha carro ia de ônibus, se não tinha ônibus, eu ia embora a pé! Que delícia ir embora a pé.

A cada dia, você escolhe ser como é, não importa sua idade

E por quê? Porque quando eu olhava para a realidade, não via apenas o que era, mas o que poderia ser. Para o olhar jovem, fica evidente que tudo que é, já não foi assim um dia. A transitoriedade dos fatos e dos conceitos é uma sensação quase física. A juventude vê as brechas abertas na realidade para que ela se transforme. Existe a todo momento a desconfiança do olhar revolucionário. Tudo pode mudar.

Na juventude, a relação com o inesperado é uma simbiose de colaboração, de proveito. E a gente dança com o acaso, se refrescando com a brisa da liberdade. Sei que, hoje em dia, tenho uma filha de 6 anos, muitas obrigações e toda uma estrutura que depende de mim. Sobretudo para as mães, sempre sobrecarregadas, a vida engessa. Sei que não posso “sair andando”. Mas como resistir ao inexorável ponteiro dos segundos?

Envelhecer é a melhor opção que o Tempo nos dá, a outra é a morte. Mas é preciso abrir alguma janela, nem que seja um basculante, para se refrescar com os ventos do inesperado. Podemos e merecemos deixar esse espaço vazio de onde surge o acaso. Talvez um passeio inédito, uma mudança pequena de planos, pessoas novas, um novo sonho… Tudo que é, já não foi assim, se lembra? Você mesmo já não foi assim. Pode não parecer, mas, a cada dia, você escolhe ser como é, não importa sua idade. Assim como escolheu sua profissão, sua vida amorosa, seus amigos… você segue escolhendo. Se afiarmos o olhar desconfiado da juventude, é possível ver por trás da máscara do mundo constituído. Nada é tão completo. Nós não somos tão sólidos.

Por que você não tenta? Respire fundo… Existe muito ar dentro de você. E, até o último suspiro, esse ar precisa ventar.

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