Ilustração: Elisa Pessôa
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Manuela Dias: é preciso fazer as pazes com a ansiedade

Graças a essa qualidade de apreensão, a esse sufoco que chamamos de ansiedade, nós estamos aqui hoje

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Manuela Dias: é preciso fazer as pazes com a ansiedade

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Graças a essa qualidade de apreensão, a esse sufoco que chamamos de ansiedade, nós estamos aqui hoje

Vamos imaginar o homem das cavernas e suas dificuldades de sobrevivência. Agora, tente imaginar um homem das cavernas tranquilo. Não conseguiu coletar frutos hoje? Tudo bem. Não caçou? O inverno está chegando? Relax. Caso esse homem das cavernas tenha existido, ele morreu cedo, sem deixar descendentes. Nossos antepassados que sobreviveram eram ansiosos, se preocupavam com abrigo, comida, com possíveis predadores, com os outros do grupo, com tudo enfim. É justamente graças a essa qualidade de apreensão, graças a esse sufoco que chamamos de ansiedade, que nós estamos aqui hoje.

Eu sou uma pessoa extremamente ansiosa. Sempre fui. Inclusive, fico chocada quando vejo pessoas despreocupadas com o futuro em geral. Como essa pessoa pode flanar pela vida sem tentar antever os perigos e problemas a que será exposta? O que ela pretende? Improvisar a cada contratempo? E quando ficar velha, terá energia para tantos improvisos? Ou será que essa tranquilidade se baseia numa espécie de certeza de que alguma providência divina virá em seu socorro quando for preciso?

Quando penso na minha vida, vejo que basicamente tudo me gera ansiedade. Ter uma filha, um namorado, o meu trabalho me gera muita, muita ansiedade… Minha mãe me gera ansiedade. Meu pai? Mais ansiedade. A casa que consegui comprar graças ao trabalho, que me gera ansiedade, também me gera ansiedade. A situação do Brasil é um poço de preocupação. E a crise climática do planeta? Taquicardia pura! Afinal de contas, seria preciso muita alienação para não ser afetada com desconforto e medo ao pensar em tudo que pode dar errado com relação a esses temas. Simplesmente porque eu me importo. Se importar, querer, desejar, tudo isso gera ansiedade. E talvez até esse texto já esteja gerando uma ansiedadezinha, não?

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Precisamos fazer as pazes com a ansiedade. Nada de ficar pensando que tudo vai dar certo. Não faça isso. Nada gera mais medo de que algo dê errado do que quando ouvimos de um amigo: “Não se preocupe, tudo vai dar certo.” Sugiro, ao invés disso, que sigamos o conselho do filósofo Sêneca. Quando estiver com medo de que algo aconteça, siga em frente com esse pensamento. E se a novela não fizer sucesso? E se o meu namoro acabar? E se a casa tiver infiltração? E se a minha mãe ficar ruim do joelho? E se tudo der errado?

“Quando uma coisa dá errado abre-se uma porta de aprendizado e crescimento”

Bem, vai ser horrível se a novela não fizer sucesso, mas eu tenho 24 anos de carreira, muitas coisas já deram certo e talvez isso não seja um índice fatal da minha falta de potência como escritora – mas se fosse eu poderia buscar outra profissão, cozinheira talvez. Quando uma coisa dá errado abre-se uma imensa porta de aprendizado e crescimento. Se der errado, quero que a responsável seja eu, para que na próxima vez eu possa fazer diferente. Se der errado… Eu vou sobreviver, vou dar um jeito de sair desse buraco. E pronto. De repente já lido melhor com a ansiedade, simplesmente porque construí uma rota de fuga para o meu medo, uma saída de emergência. Ou seja, o valoroso Sêneca e a minha ansiedade acabaram de completar a construção necessária: todo desejo tem seus medos, e todo medo precisa de rotas de fuga. Esse é o lado bom da ansiedade, como um gato que está tirando uma soneca e pula, sem hiato, ao ouvir um som. O que queremos é essa relaxada atenção, essa suave e permanente tensão que mantém as cordas esticadas o suficiente para que soe a música.

É claro que ansiedade é bom, mas ansiedade excessiva, não. Para manter a ansiedade em seu devido (e querido) lugar, existem muitas ferramentas e você precisa descobrir quais funcionam para você, em cada momento da vida. Dançar, correr, namorar, meditar, bordar, colorir, jardinagem, quem sabe o boxe? De modo geral, a forma mais recomendada e mais acessível de todas para dosar a ansiedade é fazer exercício aeróbico. Suar é um ótimo remédio para o excesso de ansiedade e tem efeitos colaterais divinos! Para mim, fazer Meditação Transcendental desde os 12 anos também é uma ferramenta que sempre ajuda.

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Minha sugestão expressa é que você faça as pazes com sua ansiedade. Não tente calar essa voz da preocupação, ao contrário, ela é sua aliada. Quando essa voz começar a falar muito alto… sue até pingar os cabelos e molhar a camisa. E sempre, sempre se lembre do conselho valoroso do grande Sêneca: quando tiver medo de que algo dê errado, não pense que vai dar certo, isso só vai piorar a situação. Ao contrário, pense que dará errado, construa suas rotas de fuga e relaxe como um gato.

*Manuela Dias é escritora e autora da novela “Amor de Mãe” e das minisséries “Ligações Perigosas” e “Justiça” da Globo.

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