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Como as músicas mexem com as nossas emoções

Na trilha sonora das nossas vidas, tem um hit para cada sentimento. Entenda por que o som certo pode trazer conforto em momentos difíceis e ainda mais alegria na hora do êxtase

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Pra curtir uma fossa a cantora Teresa Cristina põe Nana Caymmi no talo. Pra dissipar a raiva a cantora e compositora Luedji Luna vai de jazz. Pra garantir o sorriso no rosto, Letrux põe David Bowie. E elas não estão sozinhas: Há ritmos para se exercitar, pra sextar, outros para gritar a raiva e aqueles que ajudam a nos firmar na paz. Na vida, existe sempre uma trilha sonora para os mais diferentes momentos e isso não é exatamente aleatório. As músicas agem de verdade no nosso corpo e essa reportagem vai mostrar por que. A musicista Patrícia Vanzella, líder do grupo de pesquisa NeuroMúsica da UFABC, começa dando a letra: a música ativa áreas límbicas do cérebro, responsáveis pelas emoções, e o sistema de recompensa, que reforça comportamentos como comer e sentir prazer. E é por isso que determinados sons nos tocam e dão vontade de repetir a dose.

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Não são só as letras que contam histórias, mas também as melodias e as frequências sonoras 

Em alguns casos, a emoção provocada por uma música é tão intensa que nosso organismo acaba liberando dopamina, o hormônio do prazer. “Isso reflete em alterações no Sistema Nervoso Autônomo, incluindo mudanças na frequência cardíaca, taxa de respiração, temperatura corporal, condutividade da pele e diâmetro das pupilas”, conta Patrícia. É daí que vem as reações físicas, do choro ao arrepio (ui!). 

E não são só as letras que contam histórias, mas também as melodias e as frequências sonoras das notas musicais, destaca o músico Fernando Cespedes, professor e pesquisador do tema. Quem ama música clássica sabe disso muito bem! Dá para passar por várias sensações ao longo de uma mesma canção, como na Primavera, de Antonio Vivaldi, que tem momentos de alegria e outros de tensão. Isso porque, no caso da música ocidental, a harmonia é composta por escalas que transmitem sentimentos: as menores são ligadas à tristeza e, as maiores, à felicidade. 

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Para entender mais como a música se aproxima da nossa história sutil e ancestral, a musicoterapeuta Claudia Maria Lelis nos lembra que uma das relações iniciais que temos com o mundo externo é pelo som. “Nosso primeiro contato com sonoridades são as paredes intra uterinas, os líquidos da barriga da mãe e, já há algum tempo, é comprovado que o feto ouve os barulhos ao redor da genitora”. Esse é só começo de uma série de sons que vamos colecionando ao longo da vida, sempre conectados com situações e sentimentos. “Os ouvidos não têm pálpebras. Somos tocados pelas ondas sonoras o tempo todo e elas ficam gravadas na nossa memória auditiva”, explica Fernando. É esse acervo que possibilita a interpretação de histórias e emoções apenas pela melodia.

Os sons da fala também dão pistas de como uma canção pode ser decifrada. A tristeza é comunicada com um tom de voz mais opaco, velocidade mais lenta e intensidade mais fraca do que a alegria, já reparou? “Quando uma música tem essas mesmas características, tendemos a percebê-la como triste, mas não necessariamente nos sentimos tristes ao ouvi-la”, afirma Patrícia. Isso porque podemos sacar uma determinada emoção sem necessariamente experienciá-la. O que sentimos com uma música depende da nossa cultura, da nossa memória individual e coletiva e do contexto no momento da escuta, esclarecem os especialistas. No primeiro episódio do seu podcast Ser Sonoro, Fernando mostra como o som emitido pelo macaco guigó em perigo se assemelha à trilha do filme Psicose, composta por Bernard Herrmann em 1960. A coincidência entre os sons ativa nossas memórias mais ancestrais, enfatizando o suspense no clássico de Alfred Hitchcock.

Uma canção feliz e agitada pode até nos irritar se estivermos em um mood mais tranquilo

Mas o mesmo som pode surtir efeitos diversos em indivíduos diferentes. “Para a pessoa que caça o macaco, esse som pode causar não medo, mas o prazer de quem está perto de garantir o jantar”, revela o especialista. Essa variação de contexto também afeta experiências individuais. Uma música pode nos fazer chorar em um dia e, no outro, não. Já uma canção feliz e agitada pode até nos irritar se estivermos em um mood mais tranquilo, querendo curtir a paz. 

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Claudia cita o caso de uma paciente que chorou muito com uma canção em alemão sem conhecer o idioma e se surpreendeu ao descobrir depois que a letra traduzia sua vida naquele momento. Isso acontece por conta da ressonância, que é quando a melodia coincide com a nossa pulsação interna, gerando identificação. É por isso que ouvir música triste quando se está melancólica é bastante comum – encontramos conforto e empatia em um som assim. “Se coloco uma canção agitada para alegrar uma paciente deprimida, vou gerar o efeito contrário: ela pode ficar irritada e até se recusar a ouvir”, compartilha a especialista. “Nesse caso, o que fazemos na musicoterapia é tocar algo no ritmo em que a pessoa está naquele momento e ir trazendo ela aos poucos ao seu ritmo natural até que possa receber uma música mais acelerada”, diz. Então fica o alerta: é recomendável sempre se ouvir antes de tentar mudar um estado de espírito através da música. Nada de forçar a barra! Vá aos poucos. 

Compor também é sentir

Se para os ouvintes música e emoção se entrelaçam, para os artistas não é diferente. Eles também precisam ser tocados para compor. A cantora Luedji Luna diz criar suas canções atiçada por sensações que surgem de experiências reais. “Sou atravessada pelo mundo e esse turbilhão de sentimentos é que vai gerar determinada composição e tocar quem ouve”, afirma. Para Letrux, é parecido. “A música me chega de forma bem inconsciente, tem mais a ver com o que me acontece”, diz. Sua criatividade costuma ser cutucada quando se conecta intensamente com elementos da natureza: mergulhando, voando, andando, olhando para uma fogueira. Não por acaso, os álbuns mais recentes das duas artistas – Bom Mesmo é Estar Debaixo D’água, de Luedji, e Aos Prantos, de Letrux – se ligam pelo mesmo elemento, a água. Uma coincidência que, para Luedji, tem tudo a ver com a forma com que os ritmos nos embalam. “Som é vibração e nós somos essencialmente água. Por isso, ele nos toma de assalto. Não passa tanto pela racionalidade. Tanto é que a gente ouve música em outra língua e é tocado mesmo assim”, diz. 

Músicas que me tocam

Os especialistas compartilham suas músicas preferidas para diversos momentos

Para sorrir

Right – David Bowie: “Essa música começa e eu já dou um sorrisinho e tenho aquela sensação de: ‘hmmm, gostoso, gostoso'” – Letrux, cantora e compositora.
Isso é Felicidade – Arlindo Cruz: “Me faz dançar e sorrir. É alegre e, ao mesmo tempo, fala da realidade, de ser grato por estar vivo” – Claudia Maria Lelis, musicoterapeuta.

Para chorar

My Funny Valentine – Chet Baker: “A voz do Chet Baker cantando quase num lamento é algo muito bonito e me emociona pela beleza do conjunto” – Tiago Sanches Nogueira, psicanalista.
O Mundo é um Moinho – Cartola: “Corta o coração. Fala de desilusão, tristeza, coisas super amargas, mas, ao mesmo tempo, é tão bonita” – Fernando Cespedes, músico.

Para curtir a fossa

I Want a Little Sugar in My Bowl: Nina Simone: “Supostamente não é uma música de fossa, mas ela me toca em um lugar que eu dou uma afundadinha” – Letrux.
Nana Caymmi: “Fossa? Nana Caymmi. Qualquer uma. A voz da Nana coloca a gente nesse lugar” – Teresa Cristina, cantora.

Para sentir paz

Ter Peito e Espaço – Virgínia Rodrigues: “Canção de Sara Tavares, que sempre tem essa positive vibration, pacífica e leve. Na voz de Virgínia fica sublime” –  Luedji Luna, cantora e compositora
Fogueira Doce – Mateus Aleluia: “A voz desse homem é um abraço. Sinto que estou protegido” – Fernando Cespedes.

Para dançar

Dismanche Aux Goudes – Massilia Sound System: “Músicas cujo ritmo remete a coisas tribais, geralmente, me fazem querer dançar” – Tiago Sanches Nogueira.
Movin Up – Curtis  Mayfield – “Quando o vinho bate e essa música entra, é de um jeito muito animado. Ela é deliciosa, eu amo” – Letrux.

Para sentir saudade

1979 – Smashing Pumpkins: “É só tocar meio segundo que volto, de uniforme e tudo, para a sala de aula. Era minha banda favorita na oitava série” – Fernando Cespedes.
Chega de Saudade – João Gilberto: “Me traz saudade de um tempo bom” – Claudia Maria Lelis.

Para dissipar a raiva

All That I Can Say – ​​Gretchen Parlato: “Uma artista do jazz que me acalma” – Luedji Luna.
The Nest – José González: “Me deixa num estado de paz muito poderoso, num ninho. É só voz e violão. Me tira de qualquer estresse” – Letrux.

Para ir à luta

Acender as Velas – Zé Kéti: “Ele foi um combatente, muito importante pro samba. E sempre teve um olhar sobre a favela, sobre o favelado. Essa música me dá vontade de resistir.” – Teresa Cristina.
Foco nos Planos – Zudizilla: “Rap boom bap que traz essa frase o tempo todo” – Luedji Luna.



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