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As dores e as delícias de morar fora do Brasil

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Viver nos Estados Unidos foi uma experiência inesperada para Carolina Dieckmann. De volta ao nosso país, ela relembra como foram esses 6 anos

Nunca pensei em mudar de país. Nem mesmo adolescente, quando era moda fazer intercâmbio. Na verdade, como eu já trabalhava desde os treze, não adiantava nem mesmo pensar sobre. Eu não teria  tempo!  

Depois, passei a vida desejando rotina. Afinal, a vida de atriz muda o tempo todo. Então segui fazendo de tudo para que os meus dias fossem calmos, sem muita mudança, pelo menos quando dependia de mim.  

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Em 2016, por causa de uma proposta de trabalho do meu marido, me vi arrumando as malas para me mudar para os Estados Unidos… Logo lá, lugar que eu nunca nutri qualquer simpatia. Mas era miami, que tem sol, praia e o calor humano made in América Latina… De modo que comecei a achar que não seria tão ruim. E não foi mesmo.  

Em menos de um mês, já estava matriculada num curso de inglês e ainda ia de bike. Aliás, eu cruzava a cidade inteira sob duas rodas, e só apelava para carro em dias de chuva. Tinha tempo pra cuidar da casa, do marido, do filho e de mim.  

Pintei um milhão de telas, li coisas guardadas há muito. Passei a ir ao mercado, coisa que não fazia, e via beleza nos afazeres mais comuns, como se estivesse estreando numa nova vida. Comia avocado todo santo dia e isso era como poder colher no  abacateiro da minha casa de infância em todas as estações… Mais parecia um sonho. 

Para estar longe é obrigatório estar leve

Fora tudo que eu já citei acima, tem temperatura e alegria cariocas, segurança e falta de burocracia americanas. Mas é claro que tem a parte difícil também… Sempre tem. E a primeira coisa que me pegou foi a saudade. Da família, dos amigos, das festas, do trabalho, do pão francês, do mate da praia, até mesmo do caos que todo brasileiro conhece. 

Segundo que o estar fora te deixa meio desenquadrada, e fui redimensionando coisas, lugares e até pessoas… É triste abandonar pedaços da própria vida pelo caminho, mas entendi que, maior do que a tristeza, é a importância de desapegar de  tudo que já não nos serve mais, e para estar longe é obrigatório estar leve.  

Depois ainda tem a língua, que mesmo fazendo aulas de cinco horas, quatro vezes por semana, ainda me deixava insegura com a certeza de que era impossível me expressar num vocabulário tão simples… No inglês, você usa uma palavra para explicar umas dez coisas, no português, você tem dez palavras pra destrinchar cada emoção.  

Mas nesse vai e vem de somas e subtrações, nosso saldo seguia positivo, justo porque a gente estava cada vez mais junto e, assim, se passaram 6 anos.  Eis que esse mês de junho chegou com novos ventos e decidimos todos passar um tempo no Brasil. Digo um tempo, porque uma vez que você mora fora, o horizonte vira um lugar mais longe. E eu não tenho mais medo, porque sei que o  Brasil mora mais dentro de mim do que num canto bonito do mapa.  

Malas prontas, voltar é uma emoção sem fim… O que eu vou fazer, ainda não conto, mas o caso é que eu tô aqui, cheia de novas Carolinas no peito, algumas rugas, e um Brasil para redescobrir. 

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