Therapy Speak: os riscos da banalização da linguagem terapêutica - Mina
 
Seu Corpo / Reportagem

Agora é tudo tóxico ou gatilho?

Expressões que costumavam ficar restritas aos consultórios de terapia têm sido absorvidas pela cultura popular. Isso gera novos significados e pode atrapalhar os processos de autoconhecimento e até as relações, explicam especialistas

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Nos desabafos entre amigas, em posts nas redes sociais, nas DRs entre casais, palavras como “tóxico”, “trauma”, “abuso” e “manipulação” se tornaram coloquiais.  Não é de hoje que termos usados nos consultórios de psicoterapias fazem parte da nossa cultura (alô “ato falho”, “recalque” e “criança interior”), mas a popularização do debate sobre saúde mental tem ampliado esse leque colocando na boca do povo expressões que parecem refinadas, mas que não necessariamente são ditas com o sentido que têm de fato no tratamento terapêutico – o que vem sendo chamado pejorativamente na gringa de therapy speak.   

“A medida que esses conceitos se incorporam à linguagem cotidiana, seus significados se atualizam. Isso pode ser tanto funcional quanto disfuncional, então é importante estar atento à disseminação desses conceitos na internet, para evitar a diluição e banalização”, defende a psicóloga Bianca Mayumi, especialista em terapia sistêmica.

Uma olhada rápida no TikTok mostra o poder viral do therapy speak nos dias de hoje. Vídeos com #tóxico, #gaslighting (manipulação em inglês) e #limites têm, juntos, quase 19 bilhões de visualizações. O psicanalista Alexandre Patrício, autor do livro Psicanálise de Boteco, vê um risco nesse movimento. “O tratamento psicoterapêutico ainda é alto elitizado no Brasil. Falar de saúde mental para uma população vulnerável vende, a exemplo dos posts de cinco passos para ter autoestima que bombam nas redes sociais”.

“Banalizar algo tão subjetivo causa uma insuficiência”

No entanto, o processo terapêutico é muito mais profundo e delicado do que ler uma lista rápida de dicas práticas ou se identificar com uma frase de efeito, ressalta. “Banalizar algo tão subjetivo causa uma insuficiência. Fico muito preocupado com esse empobrecimento de assuntos tão complexos”, diz. 

“Hoje existe uma falsa ideia de que todos somos especialistas em tudo, inclusive em psicologia. Essa pseudossabedoria pode ser perigosa, pois implica na crença de que se conhece tudo, o que reduz a disposição para ouvir os outros”, acrescenta Bianca.  Com isso, o vocabulário terapêutico acaba sendo utilizado como uma espécie de arma nas relações interpessoais, ao invés de contribuir para o processo de autoconhecimento.

Mas fica a pergunta: quais os reais significados de palavras tão comuns no nosso vocabulário de saúde mental? A psicóloga Graça Maria de Oliveira, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, explica:

Tóxico 
Comportamentos prejudiciais em relacionamentos ou ambientes, como negativismo, vitimismo, egoísmo, violência psíquica, física ou emocional. Mas tem sido falada de forma exagerada para se referir a qualquer situação desafiadora. 

Limites 
Se refere a estabelecer fronteiras saudáveis nas relações.  O problema é que tem sido usada como justificativa para comportamentos egoístas e insensíveis, alegando que estão apenas “definindo limites”.

Gatilho 
É algo que desperta uma reação emocional intensa devido a experiências passadas. Mas muitos usam de forma inadequada para descrever qualquer situação que os deixem desconfortáveis, mesmo não tendo relação com traumas pessoais.

Gaslighting/Manipulação 
Comportamentos do outro que nos fazem duvidar de nossa própria percepção e realidade. Porém tem muita gente usando incorretamente para descrever qualquer tipo de desacordo nas relações.

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