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5 iniciativas que promovem o bem-estar na cidade

Bancos em praças, a qualidade das calçadas, as lixeiras, ciclovias e tudo que compõe o espaço urbano é fundamental para nossa qualidade de vida. Conheça projetos que colocam o bem-estar como prioridade em cinco cidades do Brasil

Nosso Mundo / Reportagem Por:
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Pouco a pouco, os espaços urbanos têm deixado de ser apenas lugares cinza, ocupados por prédios, casas, carros, muros e shopping para serem percebidos por sua capacidade de promover bem-estar e saúde. É como uma florzinha crescendo no asfalto, verdade, mas a gente gosta de ver sempre o lado positivo. E, como mais de 80% da população brasileira habita áreas urbanas, o assunto é importante.
Aqui vale lembrar que o Brasil é o país com 6º maior muro do mundo. Sim, a barreira que cerca Alphaville, em Barueri SP, está nessa triste lista ao lado do muro na fronteira entre Estados Unidos do México, da barreira Síria e do muro que isola os palestinos em Israel. O bem-estar na cidade mora no extremo oposto dessa realidade.

Não podemos perder de vista que a cidade é nossa morada. E a pandemia só reforçou essa noção de que o lugar onde moramos influencia – e muito! – nossa saúde física e mental. Então, a quantidade de bancos em praças, a qualidade das calçadas, as lixeiras, ciclovias e tudo que compõe o espaço urbano entra nessa conta. Não ter fácil acesso a serviços, segurança ou espaços de convivência gratuitos é como morar numa casa que não bate sol. Porque tudo impacta na nossa qualidade de vida.

“É preciso devolver as ruas para as pessoas”

É por isso que a arquiteta e urbanista Úrsula Troncoso defende a necessidade de planejar cidades com espaços mais livres e seguros, onde haja ar mais puro e contato direto com a natureza. Consultora do Programa Urban95 Brasil da Fundação Bernard van Leer, ela garante que para isso acontecer é fundamental “resolver a questão do excesso de espaço dedicado aos carros. “Não dá para os automóveis dominarem todos os espaços públicos, é preciso devolver as ruas para as pessoas”. 

O desafio é grande e de longo prazo, mas existem iniciativas urbanas com foco no bem-estar. E, claro, a Mina trouxe algumas pra inspirar. Até porque, muitas delas pautam leis, programas e projetos nos municípios, além de pressionarem governantes e tomadores de decisão. #fica.a.dica

Cinco propostas que têm transformado diversas regiões do Brasil:

1. Projeto Fortaleza Mais Verde

Imagine estar em constante contato com a natureza, deixar as crianças explorarem o ambiente de forma criativa e segura entre troncos, água corrente, folhas e árvores. Imagine ainda a possibilidade de colher hortaliças frescas da horta ou simplesmente pedalar e caminhar pela cidade enquanto contempla a paisagem natural. Essa é a proposta do Projeto Fortaleza mais Verde: propiciar uma vida saudável com menos impacto para a natureza.

Lançado em agosto de 2020, o programa prevê várias ações de expansão das áreas verdes da cidade. Microparques e parques em áreas verdes e ampliação da cobertura vegetal da cidade são os produtos principais da iniciativa, assim como o incentivo ao uso de transportes não poluentes como as bicicletas. Cerca de 300 áreas da cidade possuem o potencial de se tornarem microparques, isso fará de Fortaleza a cidade com a maior rede de microparques do Brasil.

Fortaleza mais Verde/ Foto: Tibico Brasil

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2. Hortas Comunitárias no Rio de Janeiro

As hortas urbanas aproximam a cidade do campo e abrem espaço para uma realidade compartilhada e sustentável. Alguns cariocas já experimentam essa vida pelo menos desde 2006 por meio do Programa Hortas Cariocas (PHC), cujo foco é incentivar e financiar hortas comunitárias. E vale sublinhar que a maior horta urbana da América Latina está situada na Zona Norte da cidade, em Manguinhos. Ao todo são  49 hortas produtivas presentes nas comunidades de baixa renda e nas escolas municipais. O programa, que começou com a iniciativa popular, foi abraçado pela gestão municipal e gera hoje cerca de 82 toneladas de alimentos por ano, abrangendo 3.720 canteiros, em uma área total de 24 hectares.

Os trabalhadores e trabalhadoras da agricultura urbana (“horteiros”, como ficaram conhecidos) recebem uma bolsa auxílio para poderem se dedicar aos cuidados das hortas. Os alimentos colhidos são repartidos e doados para as famílias. Parte dessa produção é comercializada e todo o dinheiro também é partilhado. Os beneficiários principais são pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, famílias chefiadas por mulheres, comunidades tradicionais e produtores familiares.

Hortas Cariocas/ Foto: Marcos Antonio Rezende / Prefeiturado Rio

3. Ativar Piedade! Cidade Quintal em Vitória

O Cidade Quintal se define como uma organização que trabalha para que a cidade, o bairro, a rua, a praça e a calçada, possa ser o quintal de casa. O projeto, feito com diversas parcerias, construiu um trajeto que conecta dois espaços de convivência na parte alta do bairro Piedade, uma das regiões mais vulnerabilizadas e estigmatizadas de Vitória, ES. Ele percorre trinta fachadas, uma horta comunitária, um ponto de memória e um pequeno comércio. Nesse processo, os espaços de uso e permanência foram trabalhados para que fossem reocupados por quem circula.Juliana Lisboa, designer gestora, educadora e co-fundadora da organização, celebra as conquistas do projeto. “Na Piedade, chegamos em um contexto de insegurança e tristeza muito grande devido a perdas sucessivas de jovens negros e ataques incendiários às casas da região mais alta do morro. Tudo isso provocou um esvaziamento. A resposta veio com um trajeto de pinturas que preenchesse de forma simbólica esse vazio e resgata memórias afetivas.” Para Juliana, a ação é um exemplo de como podemos estimular micro-transformações nas rotinas coletivas gerando mais saúde física e mental.

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4. Projeto Mais Vida nos Morros, em Recife

Um outro bom exemplo de política pública de promoção de bem-estar é o Projeto Mais Vida nos Morros, no Recife, onde o foco é na reinvenção da cidade e no combate à desigualdade a partir dos ideais de desenvolvimento sustentável e do protagonismo comunitário. O projeto envolve intervenções voltadas para as crianças, construção de espaços comunitários, sinalização lúdica, conscientização sobre lixo, criação de hortas e jardins em vielas, culinária sustentável e muito mais.

O programa já alcançou diversas comunidades de interesse social na cidade e se expandiu tanto que possibilita, através da página do programa, que outras comunidades se inscrevam para receber as intervenções urbanas.

Arte Urbana/ Foto: Andrea Rego Barros

5. Selvinha Amazônica, em Boa Vista

A arquiteta e urbanista Ursula Troncoso, lembra que “a escala da criança é o bairro, ou seja, ele é essa ‘pequena cidade’ na qual devemos pensar, onde tudo pode ser acessado em quinze minutos de caminhada”. Na sua opinião, a cidade ideal para uma criança pequena acaba sendo a ideal para todo mundo.

Há oito anos, Boa Vista, em Roraima, fez uma aposta: “melhorar o começo da vida para melhorar a vida de todo mundo”. Bebês, crianças pequenas (0-6 anos) e seus cuidadores passaram a ser o foco das políticas da cidade. São diversos programas com a finalidade de tornar Boa Vista mais acolhedora para as crianças. Um deles é o Selvinha Amazônica, esculturas gigantes de animais típicos da floresta tropical. Neles, as crianças exploram, criam situações, socializam e se divertem. O objetivo é proporcionar um novo conceito de brincar, aproximar as crianças dos animais e promover noções de preservação do meio ambiente. O espaço se tornou uma das maiores atrações da criançada no Complexo Poliesportivo Ayrton Senna. O local dispõe de tudo um pouco: playgrounds, fonte interativa, pista de skate.

Foto: Prefeitura de Boa Vista

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