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Saber a nossa origem faz toda a diferença na construção da autoestima

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A escravidão deixou um buraco gigantesco na história de grande parte da nossa população. Rodrigo França conversa com Angélica sobre como isso afeta a saúde mental

Você sabe onde seu bisavô nasceu? Se a resposta é sim, saiba que isso é um privilégio. Nossa colunista Angélica, por exemplo, sabe que a terra do seu avô é a Lituânia, no leste europeu, mas essa não é a realidade de boa parte dos brasileiros. O motivo? O horror da escravidão, que apagou as origens da maior parte da população negra. 

O ator, diretor e escritor de cinema e teatro Rodrigo França  fazia parte desse grupo, até que fez um teste genético de ancestralidade e desvendou que seus antepassados vieram do Benin, na costa oeste da África. “É tão importante saber isso que fico emocionado quando você fala dessa descoberta”, diz em entrevista para a Angélica.

Ele destaca que nas escolas, tanto públicas, quanto privadas, é comum os professores perguntarem aos alunos sobre suas origens e uma parte consegue responder Espanha, Itália, França e outros países europeus. “Para o aluno negro é uma grande interrogação, porque o que se conta é uma narrativa de escravidão. Mas e o que vem antes? O que é essa África pré-colonizada?”

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Mas, afinal, o que é ancestralidade? “A própria palavra ajuda, ‘antes’, ‘aqueles que vieram antes'”, reflete Rodrigo. “É o passado. Mas, para diversas culturas africanas, é o passado, o presente e o futuro. Eu sou ancestral de pessoas mais novas e de outras que nem nasceram. Isso para entender que somos continuidade, por isso a importância de saber da nossa raiz.

“Narrativa é poder. Quem pôde sempre contar as histórias e defender a sua parte? Dificilmente a gente vai ouvir o lado de quem foi vítima, indígenas e africanos”

Após descobrir o país dos seus antepassados, Rodrigo fez questão de ir até lá e levou a sua mãe para que pudessem viver essa experiência juntos. Ela se identificou tanto com o Benin que decidiu ficar lá, não retornou ao Brasil, mesmo com filhos e netos vivendo aqui. “Voltei transformado porque eu pude potencializar o que eu já sabia: o reconhecimento do quanto a população negra é potente”, conta.

Rodrigo também nos faz refletir sobre como a História é contada – e como isso reflete em racismo. “Narrativa é poder. Quem pôde sempre contar as histórias e defender a sua parte? Dificilmente a gente vai ouvir o lado de quem foi vítima, indígenas e africanos”.

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Isso faz com que algumas culturas sejam valorizadas e outras não. É só reparar de quem é o protagonismo nas telas ou nos livros de História. É sempre o mesmo olhar. Rodrigo diz que ama a europa, os EUA, o Canadá, mas que o problema está no fato do brasileiro querer como eles, quando é muito mais latino, indígena e africano – e se esquece disso. 

Angélica ressalta que a ancestralidade tem muito a ver com autoconhecimento e se conhecer é fundamental para se cuidar e pergunta ao diretor se é possível tirar o autocuidado do cercadinho VIP de quem tem dinheiro. “Precisamos entender que isso não está só na estética, mas na ética, nos valores. As duas coisas estão associadas, mas a gente tende a acreditar que esse auto amor está em uma roupa bacana, mas olhar para dentro também é importante”, diz. 

Rodrigo encerra salientando que espaços como este são fundamentais para circular a informação de que saúde mental, cura e autocuidado são para todo mundo. “Cada um vai se organizar da forma que consegue”, finaliza. 

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