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5 lições indígenas sobre a educação das crianças

Crianças autônomas, livres, integradas ao coletivo e à natureza: o que o mundo ocidentalizado pode aprender com os saberes indígenas sobre educação

Nosso Mundo / Reportagem Por:
5 minutos

A busca pelas melhores formas de educar nossas crianças é constante. Queremos que elas se tornem mais conscientes não só por uma vontade pessoal, mas também para que ajudem a construir uma sociedade melhor a todas as pessoas. Não há receita ou fórmula pronta, isso é certo, mas que tal buscar conhecimento e inspirações fora das instituições tradicionais – ou do Instagram?

Nesta reportagem, três especialistas indígenas e uma não-indígena refletem sobre as lições que o pensamento e o modo de vida ameríndios podem ensinar à sociedade ocidental sobre o tema.

1. Educar para além da escola
Educação indígena e educação escolar indígena são coisas diferentes. A primeira se dá em todo o território enquanto a segunda acontece nas escolas. “A educação é aprender no dia a dia, como algo natural, a qualquer hora e lugar”, explica Poty Poran, profissional da educação escolar do povo guarani há mais de 15 anos. “Já a escola tem formato, objetivo, hora para começar e acabar, e avaliação para saber se você aprendeu.” Na primeira infância, as escolas indígenas não são obrigatórias. Nesse período, explica o professor e escritor Daniel Munduruku, a criança “está inserida em uma espécie de teia educadora que permite que interaja com outros seres, humanos e não humanos, que têm muito a ensinar”. Ele observa que as famílias não-indígenas, em geral, se afastam da educação dos filhos delegando às escolas esse papel como se fosse o mais certo a se fazer. “É como se imaginassem que a escola tem muito mais coisa para dizer do que os próprios pais. Não tem.”

“A criança já é uma pessoa completa e tem a sua própria sabedoria – com muito a ensinar aos adultos, inclusive”

2. A vida da criança integrada à comunidade 
“O professor é uma entidade que não existe nas culturas indígenas, onde a família e a comunidade como um todo é a grande mestra”, define Daniel Munduruku. Nas comunidades com tradições e territórios mais preservados, o grande ensinamento das crianças na primeira infância é acompanhar pais e mães em suas atividades diárias. Elas vão caçar, pescar, plantar, coletar alimentos, fazer casas, cozinhar, tecer… Participam de festas, rituais, assembleias e manifestações. Não têm a obrigação de concluir nenhuma tarefa, mas estão ali, pertencendo ao coletivo. “Me chama muita atenção nas infâncias indígenas o quanto a vida das crianças é integrada à do adulto. Na cidade, temos espaços e instituições destinadas às crianças, essa divisão na aldeia não acontece”, observa Paula Mendonça, professora e codiretora do curta-metragem Waapa sobre as brincadeiras das crianças do povo Yudja. “Precisamos aprender a incluir as crianças nos espaços, entendendo que elas são parte do todo”, recomenda.

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3. Autonomia e liberdade desde cedo
“Na visão indígena, a criança já é uma pessoa completa e tem a sua própria sabedoria – com muito a ensinar aos adultos, inclusive”, ressalta a professora e liderança indígena Cristine Takuá. Por isso, não faz sentido perguntar o que vão ser quando crescer. “Elas vão dizer que já são gente”, diz Poty Poran. Confiando na capacidade infantil, estimulando sua escuta e observação, os adultos deixam as crianças circularem mais livremente. É comum vê-las usando facão e próximas ao fogo após serem orientadas por adultos. Avaliando os próprios riscos, as crianças aprendem a se virar sozinhas logo cedo e crescem mais confiantes na própria capacidade de superar desafios. Poran se lembra de uma atividade em uma creche em que perguntou a crianças de 1 a 2 anos se elas gostariam de ser pintadas e onde, para surpresa das professoras não-indígenas. “Crianças são indivíduos com ideia do que querem e não querem. Se a gente decidir por elas sempre, mais tempo vai demorar para tomar consciência de si mesmas.”

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4. Valorização dos saberes ancestrais
Outra forma de responder à pergunta “o que você quer ser quando crescer” é: “quero ser velho”. Foi o que Daniel Munduruku ouviu de uma criança de seu povo. “Ali, caiu a minha ficha. Se conseguirmos passar por todas essas possibilidades e chegarmos à velhice, teremos cumprido todos os passos entre uma ponta e outra”, diz ele, observando que quando o tempo passar e a criança envelhecer, caberá a ela contar as histórias do passado, alimentando o espírito infantil. Entre as crianças indígenas, é clara a noção de que os mais velhos são o ponto de chegada de uma vida que começa nelas. E que sintam orgulho, respeito e vontade de percorrer esse trajeto. “Em sociedades de tradição mais oral, o papel dos mais velhos é fundamental. São grandes livros de narrativas tradicionais que conseguem trazer aprendizados importantes sobre comportamento”, completa Paula.

“A educação indígena tem muito a ensinar sobre respeito não só a humanos mas a todas as formas de vida”

5. Aprender com a natureza
Nos territórios, é muito próximo o contato das crianças indígenas com o meio ambiente. “Ela vai aprendendo dessa relação íntima com a natureza de onde sai desde o alimento até o material para os brinquedos. Vê muito claramente a sua vida dependendo de seres não humanos”, diz Paula. Na cidade, onde a relação com a floresta é mais distante, perceber essa interdependência é mais difícil. Cristine Takuá reconhece experiências escolares não-indígenas que buscam retomar essa relação e alerta sobre a importância delas para formar o cidadão de que o planeta precisa. “A educação indígena tem muito a ensinar sobre respeito não só a humanos mas a todas as formas de vida. As crianças são levadas a respeitar desde formiga até anciãos, porque todos os seres têm alma”, explica. “Se hoje vemos mineração como progresso é porque as crianças não-indígenas do passado não aprenderam essa lição.”

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