Por que as mulheres devem garantir sua autonomia financeira - Mina
 
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Amor, amor, finanças à parte 

Quantas mulheres você conhece que saíram do relacionamento com uma mão na frente, outra atrás? Tatiana Vasconcellos destaca a importância de cuidar da sua segurança financeira por mais confiável que seu companheiro pareça

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A expressão “amor, amor, dinheiro à parte” deveria ser o lema de toda mulher ao embarcar em um relacionamento. Por mais confiança e carinho que exista entre um casal, a história mostra que a gente não pode deixar nossas finanças nas mãos do parceiro. Dinheiro é, sim, coisa de mulher e você deve cuidar do seu. 

Ao longo da vida, conheci muitas mulheres com históricos parecidos e bem comuns para filhas dos anos 70: mães dependentes economicamente de seus companheiros, que em algum momento foram abandonadas com seus filhos e sem fonte de renda para seguir suas vidas. O famoso “tiveram que se virar”. Aprenderam na marra a ter autonomia financeira. 

Que saibamos administrar ganhos e patrimônio conquistados às custas de muito trabalho

Dinheiro tem que ser coisa de mulher urgentemente. Não só no sentido de ganhá-lo, como foi necessariamente debatido no Pacto Global da ONU, como muito bem abordado pela super Letícia Vidica aqui, mas principalmente que saibamos administrar ganhos e patrimônio conquistados às custas de muito trabalho. Infelizmente, ter acesso ao dinheiro não nos blinda de sermos ludibriadas e desfalcadas financeiramente. 

Recentemente, a atriz Samara Felippo revelou que há anos tenta reaver na justiça a parte que lhe cabe no latifúndio construído conjuntamente com o ex-companheiro, o jogador de basquete Leandrinho, pai de suas duas filhas. A apresentadora Ana Hickmann nos deixou chocadas quando revelou ter sofrido vários tipos de violência doméstica, inclusive patrimonial, do marido de quem se separou depois de 25 anos. Eu mesma, puxando pela memória, há quase duas décadas, bem jovem, fui enganada por um homem dito profissional da contabilidade quando tive de passar a lidar com burocracias de prestação de serviço. E tive de arcar com o prejuízo. Felizmente, tinha uma reserva de emergência.

Aparentemente, estamos diante de uma dualidade que nos leva ao mesmo saldo: da maneira como funciona hoje, o sistema dificulta (quando não impede) o acesso de mulheres ao dinheiro, nos mantendo dependentes. As que ganham seu suado caraminguá não estão livres de serem usurpadas por homens, companheiros de quem naturalmente não se espera algo assim quando estão apaixonadas fazendo planos materiais juntos (lembro da reportagem sobre “esposa troféu” e tenho calafrios nervosos). Enquanto sociedade, parecemos não querer mulheres e dinheiro na mesma frase de jeito nenhum. E isso tem que acabar. 

Quantas mulheres você conhece que, ao casar, foram convencidas a abandonar suas carreiras ou fonte de renda pelo motivo que for – não raramente em nome do que entendem como amor, mas, na verdade, é trabalho de cuidado não remunerado – e depois foram traídas, abandonadas e ficaram totalmente desamparadas? Quantas mulheres você conhece que entraram com uma parte, mas saíram sem nada de uma relação conjugal? Em relações heterossexuais, é muito comum que homens se coloquem como responsáveis pela administração das contas da casa e da família, mesmo que a fonte de renda também venha da mulher. Muito porque em geral eles ganham mais do que suas companheiras (exatamente 19,4% a mais, na perspectiva menos pessimista, segundo relatório fresquinho do Ministério do Trabalho e Emprego). 

A violência patrimonial atinge 34% das mulheres vítimas de violência doméstica

Isso tem tudo a ver com o significado do dinheiro na nossa sociedade. Dinheiro = poder. Tem a ver com a relação que homens têm com dinheiro. Com o papel que lhe atribuíram de provedor, aquele que não deixa faltar nada em casa. O custo da manutenção dessa imagem pra eles pode ser adoecimento, burnout, suicídio, passar a maior parte da vida longe da companheira e dos filhos, se afundar em despesas. Isso quando não usam os dados das mulheres para transações que resultam em dívidas enormes que elas nunca fizeram, nem desconfiavam que eram feitas, e com as quais tiveram de arcar.

Violência patrimonial é um tipo de violência doméstica prevista na Lei Maria da Penha. Um estudo feito com 21 mil mulheres brasileiras pelo Instituto DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) e divulgado em novembro de 2023, conclui que três em cada dez brasileiras já sofreram violência doméstica provocada por um homem. 22% delas contaram que, pelo menos, um episódio aconteceu nos 12 meses anteriores. A violência psicológica é a mais recorrente, 89% das respostas. Violência patrimonial soma 34%. 

Falar sobre segurança e autonomia financeira pode ser difícil para algumas mulheres. Pode ser aparentemente contraditório planejar o possível fim de um relacionamento quando se está confortável nele. Mas é meio como planejar a morte: de maneira desromantizada, realista e pragmática. Quem gosta de viver não quer morrer e pode ser um tanto incômodo falar disso. Mas é melhor que quando (e, no caso de uma relação conjugal, “se”) acontecer, que estejamos minimamente respaldadas, pelo menos financeiramente, pra recomeçar. Ou pra continuar. Nesta ou numa outra vida.  

Antes de ir, passa aqui no “Manual básico de segurança financeira para mulheres” feito pela Revista Az Mina.

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