Tathi Piancastelli: “Quero ver todo mundo junto e misturado” - Mina
 
Seu Corpo / Arquivo Pessoal

Tathi Piancastelli: “Quero ver todo mundo junto e misturado”

O sucesso nas redes sociais veio na pandemia, mas desde cedo Tathi plantou a semente da inclusão. Neste relato através de cinco fotos, ela conta que o preconceito não a atinge mais. E foi isso que a fez seguir, criar, escrever e ser uma atriz premiada (por enquanto)

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Tathiana Piancastelli tem 39 anos e provou o boom na internet com a viralização de seus vídeos durante a pandemia. Estava morando no Brasil, com sua irmã, e por ser parte da população de risco, por conta da Síndrome de Down, ficou bastante tempo em isolamento. Seus pais estavam nos Estados Unidos, onde ela morou por muito tempo. Autodefensora, como o nome sugere, ela é ativista de sua própria causa, que é a inclusão das pessoas T21. Sua vida acaba sendo um demonstrativo de possibilidades. Atriz, escritora, palestrante e personagem da Turma da Mônica, Tathi já fez muita coisa e garante que não vai parar. A seguir, ela conta através de cinco fotos como lidou com a autoestima, o preconceito e o corpo ao longo da vida. 

Em um ensaio, aos 10 anos, para uma foto de porta-retrato da sala | Crédito: Arquivo pessoal

“Me incomodava este negócio de especial”

Para Tathi, a escola é um ponto de partida para o fim do capacitismo, o preconceito contra pessoas com deficiência. Ela já passou por momentos difíceis e acredita ter criado uma casca blindada. “Uma vez no aeroporto, quando eu era criança, uma pessoa me chamou de doente. Passou, mas ainda existe muito preconceito, e acredito que o trabalho nas escolas é muito importante para isso mudar. É preciso ter pessoas com deficiência de todo tipo. Cegos, os que usam LIBRAS para comunicação, cadeirantes”, fala Tathi. Ela acredita que deveria haver mais convivência, pois as lutas convergem: “Meu lema é tudo junto e misturado na diversidade”. 

Na adolescência, pediu aos seus pais para mudar de escola. Morava em Campinas na época, e estudava em uma especializada em alunos com síndrome de down. Seu desejo era conviver com crianças diversas, de desenvolvimento típico ou não. “Passei por isso e não tava bem. Me incomodava este negócio de especial. Pedi para sair. E as outras pessoas? Queria conviver com todo mundo, fui para uma escola regular”, conta. “Fiquei muito mais feliz, mudou minha vida”. 

Tathi, dois anos atrás, dando palestras sobre inclusão | Crédito: Lorena Costa

“As crianças podem aprender a ser anticapacitistas”

Motivação, autoestima, capacitismo, realização de sonhos são alguns dos temas que a escritora aborda em suas palestras. Falar em escolas tem um sabor especial, de plantar a semente da inclusão em quem se forma. “Acho muito importante pois muita gente pensa  coisas sobre a síndrome de Down que simplesmente não são verdade. Gerar curiosidade ajuda a diminuir o preconceito. As crianças podem aprender a ser anticapacitistas”, diz. 

E Tathi aprendeu no berço o valor destes momentos de diálogo. Não foi uma ideia pensada ser ativista, mas sim algo natural de um exemplo que nasceu em casa. Sua mãe Patrícia Heiderich criou o instituto MetaSocial em 1996. Juntamente com Helena Werneck, mãe da ativista Paula Werneck criou ações de inclusão, como campanhas e palestras para pessoas com deficiência intelectual. Hoje, a família toda participa das ações. 

Os anos de trabalho em equipe deram fruto: Tathi tem mais de cem mil seguidores. Ela começou a plantar a semente das redes sociais dez anos atrás, quando começou a publicar vídeos no Instagram. Veio para o Brasil e acabou ficando por conta da pandemia. “Não podia sair, fiquei na minha irmã, por ser do grupo de risco, começamos a fazer mais vídeos e deu um boom. Precisei chamar uma amiga, que morava com a gente, para gerenciar minhas redes”, conta Tathi, se referindo à Cinthia Militão, que também é sua assessora. As duas juntas decidem com quais marcas farão parcerias e ações de marketing, que vão desde skincare a viagens. A parte financeira, administrativa e a criação de conteúdos ligados à causa ficam por conta da mãe. 

Primeira apresentação de seu espetáculo solo, aos 37 anos. | Crédito: Marcelo Murbach

“Em 2024, quero fazer mais filmes e peças”

Para chegar neste estágio de ter uma equipe de profissionais e ser amplamente conhecida, ela fez muita coisa – e muita coisa boa. Apaixonada por teatro, escreveu a peça Menina dos Meus Olhos (Apple of My Eye, em inglês). A peça fala sobre uma adolescente com Síndrome de Down em busca de aceitação, amor e respeito. Dirigida por Débora Balardini, a peça foi encenada em Nova York, foi apresentada no circuito off Broadway e ganhou o prêmio “Brazilian International Press Awards USA 2016”.

No ano seguinte, Tathi fez parte do filme Cromossomo 21 e foi uma das protagonistas da série Expedição 21. “Em 2024, quero fazer mais filmes e peças. Posso tudo o que eu quiser”, diz a atriz e roteirista. Entre os planos está a estreia nacional do projeto teatral “Oi, Eu Estou Aqui”,  escrita com o diretor Fábio Costa Prado. Uma versão menor da peça já foi apresentada na Bienal de Veneza, em 2019. Na peça, onde ela divide com o público suas experiências e aspirações, irá rodar os estados de São Paulo ainda este ano. “Meu sonho é atuar em uma novela”, conta.

E em seu currículo, pausa para duas cerejas do bolo. Tathi foi inspiração para a criação da personagem Tati, da Turma da Mônica, depois que Maurício de Souza a conheceu em uma sessão de autógrafos em 2008. E em 2020, foi inspiração para o enredo da escola de samba Unidos do Alvorada de Manaus com o tema “Oi, Eu Estou Aqui, Alvorada Com Um Cromossomo a Mais Mostra Que Ser Diferente é Normal”. 

Em março de 2022 Tathi se casou com Vinicius Streda em uma superfesta no interior de São Paulo. | Crédito: Marcus Ribeiro

“Anjo é a vovozinha”

É capacitismo pensar que pessoas com deficiência mão namoram, não tem sexualidade, não transam. “Anjo é a vovozinha”, diz a influencer que no ano passado se casou com 

Vinicius Ergang Streda, de 35 anos. Eles se conheceram nas gravações de Geração 21, que contava a história de jovens com Síndrome de Down. O pedido de namoro foi numa live, durante a pandemia. “Não foi meu primeiro namorado, sempre fui namoradeira”, conta. 

Seu casamento foi parar nos jornais e teve pico de audiência no Instagram. A exposição aqui é do bem. Ao compartilhar sua rotina, com o marido, com a sobrinha, viagens com a família, ela consegue mostrar que no dia a dia, todo mundo tem seus desafios e questões. “Acho importante este tipo de conteúdo, pois as pessoas terão mais curiosidade sobre a Síndrome de Down, vão procurar saber, e isto pode ajudar a diminuir o preconceito. Nós estamos aqui, somos parte da sociedade”, afirma. 

Passaram a dividir o apartamento em que Tathi morava e, também, a enfrentar os desafios da vida de casal. “Sou um pouco mais velha do que ele, às vezes temos discussão por eu ser mais experiente, já ter morado sozinha. O mais difícil é que o Vinícius acorda muito tarde e eu às seis da manhã, pois durmo muito cedo”, conta. 

Em 2021, aos 36 anos, na primeira ida à praia pós-isolamento | Crédito: arquivo pessoal

“Sinto orgulho de quem sou, o preconceito não me atinge”

Embora o isolamento tenha sido produtivo, estar em um grupo de risco, fez com que Tathi não perdesse a primeira oportunidade de ser o que ela quer que todos sejam: livres. “Fui para uma praia isolada, meditei, e voltei renovada”. Viagens no motorhome da família, participação em eventos e festas, é disso que ela gosta. Já retomou com tudo nestes últimos dois anos a vida agitada. 

Para estar sempre na ativa, Tathi cuida bastante do bem-estar. “Eu me cuido, faço skin care, passo protetor rosto, hidratante no corpo e faço exercício”, diz Tati que é praticante de pilates. Ela também fica de olho na alimentação e cortou farinha branca. “Eu gosto de comer, devoro tudo que vejo na frente, mas sigo uma dieta glúten free”. 

Tathia conta que nunca teve problemas de autoestima ou questionamentos com seu corpo; “Sempre gostei de mim mesma, sinto orgulho da Síndrome de Down e da minha trajetória. Me cuido, me amo e o preconceito não me atinge mais”, fala. 

Este ano vai ser especial, pois ela completa 40 anos, uma idade que é um marco para nós mulheres. E vai ter muita celebração: “Sou muito festeira, gosto de dançar e beber todas. Quero comemorar no dia, um dia antes e um dia depois”. 

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