Suas Emoções

Cinco lições para aprender com o fenômeno Free Britney

O que a história de Britney Spears nos ensina sobre saúde mental, liberdade e justiça

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Britney Spears. Só nome já nos transporta para tempos nostálgicos cantando Baby One More Time no chuveiro ou dançando Toxic na festa de uma amiga. Era impossível escapar de seus hits chicletes e de seu magnetismo adolescente no início dos anos 2000. Em poucos anos, entretanto, Britney se viu no olho do furacão de uma mídia misógina, passando de “queridinha da América” para “queridinha dos tabloides”.

Em 2020, a repercussão do movimento #FreeBritney jogou luz nos mais sórdidos detalhes da disputa judicial que a cantora movia contra seu próprio pai, Jamie Spears, e expôs o controle excessivo e criminoso em que ela foi colocada nos últimos treze anos. 

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Britney finalmente está livre, mas sua história tem muito a nos ensinar sobre como a sociedade enxerga as mulheres. Vamos de tópicos?

Britney cercada pela mídia que ajudou a construir o estereótipo da estrela pop louca

O que significa ser mulher?

Mulheres ainda precisam se encaixar em estereótipos. Recentemente, Britney apontou que os paparazzi manipularam sua imagem para ridicularizá-la. O controle da mídia e a opinião pública sobre o formato dos nossos corpos, cor de cabelo, roupas e o modo como nos expressamos transformam tudo em rótulo e engolem nossa individualidade. Marilyn Monroe escrevia poesia e se interessava por filosofia, mas viveu e morreu sendo a “loira burra”. Sandy chocou o Brasil ao falar sobre sexo anal, porque “como assim? Ela não era puritana?”. Somos punidas sempre que fugimos desses estereótipos.  E quer atitude mais primitiva do que tentar nos reduzir a imagens fabricadas? Sai fora: quanto mais versões nos couberem, melhor.

O pai de Britney, em mais uma tentativa de silenciá-la

A justiça (ainda) é machista 

Para que o pai de Britney conseguisse controle total sobre a filha bastou declarar à justiça americana que ela tinha demência. Detalhe: ninguém até hoje viu o suposto atestado médico. Mais fácil que tirar doce de criança é tirar os direitos de uma mulher adulta. Britney ainda confessou que tinha vergonha de contar ao mundo sobre os abusos que vivia por achar que ninguém acreditaria nela. Mulher sendo desacreditada? Temos. No Brasil, o caso da blogueira Mariana Ferrer escancarou o quanto é difícil e humilhante denunciar abuso sexual. Durante uma audiência judicial, ela foi chamada de “dissimulada e falsa” e teve fotos pessoais usadas como justificativa de que ela tinha “má índole”. Além disso, somente em fevereiro de 2021 é que a tese de “legítima defesa da honra” em crimes de feminicídio foi considerada inconstitucional pelo STF. Uma boa notícia. Mas, caramba: dois-mil-e-vinte-um! 

Chorona, derretida, surtada: Britney nas capas de revista

Saúde mental só entrou na moda agora

Em 2007, Britney foi centro de um espetáculo midiático que explorou sua saúde mental e a transformou em fantasia de Halloween de mal gosto. Naquela época, não havia nenhuma discussão sobre a importância de cuidar do nosso bem estar emocional, aliás, foi necessária uma pandemia para a questão ganhar destaque. Quem nunca ouviu um “ela tá nervosa porque é mal comida”? Mas é preciso trazer também o outro extremo, porque estamos na era da positividade tóxica, que nos tirou o direito à demonstração virtual de qualquer sentimento pessimista sem que alguém nos mande levantar e aplaudir o sol. Às vezes, a gente só quer extravasar um pouco, mostrar que somos humanas e temos dias ruins, mas “e a gratidão, hein?”. Britney, nervosa, tem demonstrado raiva em legendas do Instagram, e que isso sirva de inspiração pra todas nós. Desabafar no próprio espaço virtual pode ser terapêutico.

“Você não é meu dono”, indireta enviada

Livres, mas só até a página 2

Mesmo após o emocionante testemunho da Britney denunciando as torturas a que foi submetida, parte do público ainda acredita que seu pai é um herói que a impediu de cometer erros. Nunca foi sobre a capacidade dela, mas sim sobre suas escolhas pessoais e como contê-la. Uma mulher que quer ser mãe e sexy ao mesmo tempo? Usar roupa curta e tratar de negócios? Nem a poderosa Anitta, que arrebentou as portas da liberdade pessoal, financeira e sexual, consegue escapar da fama de controladora e “difícil” de lidar. Embora comum, a ideia de que uma mulher “livre demais” precisa ser contida é tão tosca quanto acreditar que a Terra é plana.

O movimento dos fãs que fez história

A rede de apoio, modo de usar

Ao suspeitarem que Britney corria perigo, fãs do mundo todo desafiaram as teorias da conspiração e se uniram para dar voz a uma mulher silenciada. O movimento #FreeBritney cresceu e pressionou o Estado da Califórnia a discutir uma reforma no sistema de curatelas, provando que a união não só faz a força, como também pode mudar leis. É difícil entender que nem sempre essa força vem da nossa família ou de amigos próximos. Às vezes, ela pode vir de desconhecidos que se identificam com o que estamos passando e dedicam tempo a nos ajudar, seja com uma palavra amiga, uma gentileza ou um comentário legal numa rede social. Buscar grupos de pessoas compatíveis com nossos ideais é sempre uma oportunidade de crescimento. Vamos longe quando vamos juntas.

Por fim, acreditar em si mesma é um ato de coragem num mundo que nos desacredita todos os dias. Apesar da mídia, da família, dos traumas e do completo isolamento, Britney nunca perdeu a essência ou desistiu de lutar, e talvez seja essa a maior lição que podemos tirar da trajetória dela. Liberte a Britney que há em você!

* Giulianna Palumbo é escritora, roteirista e produtora editorial. Entre um texto e outro, acende um incenso, medita, lê fofocas na internet e assiste à comédias nacionais dos anos 2000 ingerindo carboidratos

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