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“Carolina, houve um fogo na sua casa”

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Quando Carol tinha 11 anos, a casa da família Dieckmann queimou todinha. Ninguém morreu, mas ninguém também nunca mais foi a mesma pessoa. Aqui, ela conta como esse incêndio moldou sua vida

Eu tinha 11 e já passava das quatro da tarde. Dois toques na porta e a coordenadora entrou, cochichou algo no ouvido da professora e, de canto de olho, mirou em mim. Sempre fui arteira, não era uma novidade ser o centro das atenções, e eu passava o recreio na sala da diretora pelo menos uma vez por semana. Mas alguma coisa estava diferente naquela cena, e a sobrancelha dela um tanto caída, como quem sente pena, fez meu coração acelerar.

Chegamos na sala da coordenação mudas. O silêncio fazia barulho, e eu podia sentir meu sangue pulsando corpo adentro. Segundos que duram milênios… 

Ela puxou a cadeira e eu sentei.
“Carolina. Houve um fogo na sua casa”.
Nunca esqueci essas palavras. Nem a ordem, nem a entonação. Nem o susto e tudo que eu não era capaz de entender. “Um fogo?” 

“Ninguém morreu, vamos construir tudo de novo”

Uma amiga dos meus pais foi nos pegar na escola. Os quatro irmãos espremidos no banco de trás. Não lembro desse trajeto, nem se falamos alguma coisa, mas ainda sinto a pele quente, e posso jurar que estava vermelha, mesmo sem ter me visto no espelho. Cruzamos com o último dos nove carros de bombeiros que foram acionados, ainda na entrada da rua. Chegando perto da casa, vi meu pai de costas, cercado de vizinhos, com as duas mãos na cabeça.  Minha mãe sentada no meio fio, ao lado do carrinho de bebidas que ficava na ante-sala, e foi salvo pela selma, além do casal de cachorros.

“Ninguém morreu, vamos construir tudo de novo”. Minha mãe disse essa frase, como quem sente alívio, e eu demorei muito pra entender como ela conseguiu sentir qualquer coisa que não fosse desespero; aquilo soava loucura. A casa queimou toda. Era fumaça e carvão por todos os cantos. O cheiro de madeira queimada era forte e nunca me abandonou, mesmo mais de trinta anos depois. 

Eu não tinha mais roupa, nem bicho de pelúcia. Não tinha mais cama, nem pasta de papel de carta. Eu tinha uma vida, mas agora, ela era outra.

Arte produzida por Carol

Passar por um incêndio assim, é coisa séria . É trocar de casca na marra, sem chance de pegar algo esquecido. É passar a viver do que está dentro, porque fora, queimou. “Ninguém morreu, vamos construir tudo de novo”.

Arrisco dizer que essa é a frase mais emblemática da minha vida. É pra ela que eu corro quando preciso lembrar que tipo de gente sou eu, ou do que eu sou feita. É nela que eu penso para relembrar minha história, porque nela ecoa a mãe que eu tive e, consequentemente, a mulher que sou. Ela estabeleceu ainda os limites da minha fé, no tanto que eu tenho de esperança, e até onde ela tem fôlego: tudo que acontece enquanto se está vivo é chance e oportunidade. 

Essa frase, que foi dita numa espécie de fim de mundo, me trouxe muito cedo, a exata dimensão do que somos e o que podemos. Nós só não podemos mesmo com a morte. E foi justo no dia que a minha mãe morreu, que isso tudo fez ainda mais sentido. Afinal, nenhum mundo morre. Quem morre somos nós.

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